Memória

Ao meu pai

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

O doce tingimento do céu chocava-se com o estardalhaço das buzinas quando, voltando de um sebo, você me disse que o ocaso é um momento de agonia, instante em que os raios crepusculares se transmutam em escuridão e trazem consigo a angústia dos finais. Guardo na memória a imagem dos carros deslocando-se freneticamente entre uma faixa e outra, em sincronia com os pássaros que, atônitos, revoavam em descompasso. “A inquietude impera e opera em conjunto com a incerteza”. Lembro de olhar para o céu e concordar, em silêncio. Tudo era rosa.

Os pores-do-sol, desde então, não me são mais os mesmos. Alguns seguem rosa; outros, nem tanto. A tonalidade, todavia, não parece importar: a mim, sobressai a memória. Ouço, em todos os momentos de apreço ao céu crepuscular, a sua voz dizendo tanto, com tão poucas palavras. Mais que isso, enxergo em mim a sua percepção acerca do mundo e vejo, enfim, a minha sorte por tê-lo ao meu lado. Sei que, se alguma oportunidade tivesse, não faria escolha diferente. Tampouco farei, se outra vida houver. É você quem eu quero como pai, sempre.

Tudo, por fim, converge nos versos que iniciam este texto. Sobressaem à finitude os tão belos momentos que juntos tivemos. Estes passam, mas recorro à lembrança. Esta, por sua vez, permanece, relembrando-me a todo instante da gratidão que sinto por tê-lo por perto.

Obrigada por estar ao meu lado e por trazer ao meu cotidiano toda a doçura do seu carinho.

Os dias renascem; o amor, finalmente, transborda.