Sobre o aborto e a sensibilidade humana

Há 2 anos estudo em jornadas de horas e horas todos os dias com o objetivo de viver meu maior sonho: seguir a medicina. Essa escolha vem de encontro com a minha crença de que a vida é valiosa e importa muito. Pessoalmente, seria extremamente incoerente eu ser a favor da criminalização do aborto. Abortar não é algo fácil pra uma mulher, os danos psicológicos são eternos, é um ato mais doloroso que um parto e ilegal ou não, é uma realidade brasileira que tem como consequência a morte de milhares de mulheres, sobretudo, mulheres pobres que se submetem ao ato. Quem pode pagar uma clínica que embora ilegal ofereça estrutura, faz isso de modo “seguro”, entretanto, a maioria das mulheres, sem condições financeiras, são expostas a verdadeiros açougues. Trata-se da violação completa da dignidade da mulher devido a falta de respeito à autonomia sobre seu corpo. Além disso, despenalizar o aborto é uma das medidas mais acertivas em prol de diminuir os índices de tal prática. O Uruguai é um exemplo disso: após a legalização, o número de abortos diminuiu drasticamente. E isso é porque trata-se de uma questão de saúde pública que infere no suporte psicológico, educativo e médico, bem como acompanhamento à mulher que opta por esse caminho (que existe sendo legal ou ilegal). Esse tipo de assistência, de acordo com a experiência de países que já tem essa como uma prática de direito, é o que as mulheres precisam e são determinantes em inúmeros desses casos pra que muitas repensem, tenham esclarecimento e muitas vezes desistam da ideia. É bem equivocado e superficial pensar que a despenalização do aborto é uma apologia a tal prática. Muito pelo contrário.

Também é inegável que tem uma forte questão de gênero permeando essa discussão. E no que cerne ao papel do homem, muito mais que 5 milhões de crianças brasileiras não tem sequer o registro paterno. O abandono afetivo da figura paterna é muito comum e eu arrisco dizer que cada brasileiro conhece ao menos um caso assim. Outro dia li um post do Dr. Drauzio Varella em que ele dizia que se os homens parissem, o aborto já seria universalmente legalizado. É muito claro que o aborto masculino é legalizado. É cruel julgar os motivos de uma mulher que queira seguir esse caminho. Eu sou a favor da vida e vejo a legalização do aborto como um meio diretamente ligado a isso.

Na prática, a inconstitucionalidade do aborto é uma chave conveniente ao Estado para a negligência acerca de tal questão. E não só isso, também é perceptível em meio a discussão uma violação a uma prerrogativa básica da democracia brasileira: a laicidade estatal. Estatuto do Nascituro, bolsa-estupro e outras propostas que dificultam e restringem a liberdade e direitos femininos mostram bem isso. Nitidamente não há uma posição cidadã, humanizada e sensível do Estado frente à condição da mulher perante uma situação em que encontre o aborto como uma saída. E pra mim, a legitimação desse posicionamento por parte da sociedade é decepcionante, cruel e limitada.