fraca, frouxa e ingrata.

Fui tomar banho com a música triste do Snow Patrol na cabeça. Devia ser aquela música que é cantada num episódio de uma avançada temporada de Grey’s Anatomy.

Não era dos melhores dias. Minha sanidade beirava os poucos centímetros do precipício. Minha auto-estima estava próxima ao inferno. Nem mesmo meu sorriso conseguiu me convencer de que passaria um dia invicta do meu auto-sofrimento.

Fui ao banco. 
À loja de cosméticos.

Ao sapateiro.

À feira. E eu sabia que o problema era comigo.

Espacei as respostas nos aplicativos de mensagem. Era aniversário de um amigo e não queria ser contagiada pela alegria. Eu precisava ficar triste, nem que fosse por algumas horas.

Fiz um bolo e foi aí que percebi que estava mesmo me sentindo mal. O bolo, a propósito, ficou ótimo.

Vaguei por algumas horas pela internet e decidi tomar um banho de banheira. Mas pasmem, não tinha uma banheira, então, teria que mentalizar a sessão de relaxamento em uma.

A água estava quente, mais quente do que eu esperava até.

Me despi de tudo, inclusive, daquilo que avacalhava a alma.

O primeiro contato da água fervente com minha pele foi estremecedor. Meus músculos enrijeceram-se e em questão de segundos, relaxaram.

Deixei que o sabonete tirasse cada molécula de sujeira que estivesse pousada sob minha pele e logo fui invadida por um aroma celestial.

Meu banheiro estava a meia luz. Sentei embaixo do gotejar incessante do meu chuveiro. Senti o toque inquieto dos meus dedos pelos pontos de tensão. Pensei nas possibilidades que a vida me dava e em seguida, tirava-me. Me senti ingrata. Ingrata por ser tão frouxa e tão compreensiva. E desatei a chorar. Um choro quieto e com motivos constrangedores.

A água que era tão quente, já não estava tão quente assim. Desliguei o chuveiro após levantar-me do chão frio em que estava sentada. Enrosquei-me na toalha de fios egípcios que achei e apoiada na parede, permaneci mais alguns minutos.

Ao sentir o vento frio vindo da janela percorrendo pelas minhas costas, rapidamente, me permiti passar creme hidratante em cada nó de tensão que permaneceu. Senti que alguns afrouxaram e outros, continuavam ali, tão resistentes quanto eu.

Vesti o pijama mais velho e mais confortável que tinha. Assisti ao filme mais tiazinha que existia no Netflix. Coloquei o celular no modo avião e me dei a chance de recomeçar no dia seguinte.

Mesmo que estivesse sentido-me fraca, frouxa e ingrata.

E foi assim que recomecei hoje: fraca, frouxa e ingrata, mas consciente de que a esperança tomou conta e que meus sentimentos são pra lá de verdadeiros.

Só preciso segurar a onda e vez ou outra, deixar-me invadir.

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