próximo passo

Beatriz Amorim
Jul 21, 2017 · 3 min read

Madrugada de quinta-feira. Uma noite bem fria em contraponto ao coração que incendiava.

Os últimos dias, eu havia fechado a contabilidade dos prós e contras de ser eu e estava colocando tudo em uma planilha do excel. As contas batiam, no fim. E só nesse momento, eu percebi o que havia me tornado.

Naquele ponto, eu estava computando e analisando estatisticamente, a possibilidade, de mais um ou duas frustrações acontecerem no próximo intervalo de quinze dias. Era isso que eu havia tornado-me? Alguém tão racional? E ao olhar no espelho próximo ao computador, eu percebi que a minha aparência durante os anos havia mudado pouco. Arrisco dizer que o rosto apenas envelheceu. A essência continuou a mesma. Mas o emocional mudou. Amadureceu tanto, que tornou-se intolerante consigo mesmo.

Era resultado de uma série de fatores que não deixaram as feridas cicatrizarem-se em seu próprio tempo. Com suas próprias intensidades e amarguras. E eu, tornei-me isso: impulsivamente intensa e amarga. Tão amarga quanto café extra-forte sem açúcar. Tão forte quanto uma dose de tequila. E tão intensa quanto uma foda bem feita.

E vagando pelos pensamentos que nunca param e pelos alertas que recebi: eu não me assemelhava em nada com minha essência. Algumas horas conversando com alguém que me conhece -quase- tão bem quanto eu mesma foram suficientes.

Você deve pensar: “que tipo de pessoa nunca te aconselhou sobre os caminhos que você estava tomando?”, mas, a questão é que eu nunca estive tão pronta para ouvir esses conselhos e eu só notei que estava pronta depois de ouvi-los. Acho que, pela primeira vez em um muito tempo, eu sou capaz de reconhecer a luz que a Beatriz trazia mesmo cercada de tantas sombras, assombros e ruínas.

Acho que, mais do que nunca, eu estou pronta para encerrar esse capítulo doloroso. E arrisco a dizer, que estou até ansiosa para as próximas histórias das quais serei protagonista dentro dessa trama incrível que é ser eu.

Depois de pensar em tudo isso e dormir pouquíssimo, eu acordei com uma vontade de ver o mundo com meus olhos de essência. E foi isso que eu fiz. Ajuntei alguns documentos. Joguei uns trocados no bolso e encarei palco de grandes conflitos meus.

Senti o vento tocando de forma sutil meu rosto. Típico dia ensolarado de inverno. Não liguei para as dores físicas, porque era uma vitória que não houvesse dores emocionais.

Sacudi a poeira que já fazia parte da mobília do baú de recordações internas. Respirei fundo. Senti o ar esvaindo-se de cada milímetro dos meus pulmões. Controlei a vontade de respirar por alguns instantes e como um neném ao nascer, respirei profunda e lentamente. Destranquei o baú com as mãos trêmulas e pela primeira, em anos, a poeira não causou alergia. Sequer causou coceira.

E aí, eu descobri que para reviver algumas coisas não é necessário sofrimento. É necessário compaixão e amor pelo o que foi vivido, mas o que me invadiu foi gratidão.

E agora, eu só consigo perceber que o próximo passo é tão pequeno e tão sutil que na próxima respirada funda que eu der, eu já estarei no mais novo capítulo de toda intensidade que é ser eu. E, finalmente, poderei dizer, “lá vamos nós, de novo”.

)

Beatriz Amorim

Written by

lembre-se: a sua maior força está em seu coração.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade