próximo passo
Madrugada de quinta-feira. Uma noite bem fria em contraponto ao coração que incendiava.
Os últimos dias, eu havia fechado a contabilidade dos prós e contras de ser eu e estava colocando tudo em uma planilha do excel. As contas batiam, no fim. E só nesse momento, eu percebi o que havia me tornado.
Naquele ponto, eu estava computando e analisando estatisticamente, a possibilidade, de mais um ou duas frustrações acontecerem no próximo intervalo de quinze dias. Era isso que eu havia tornado-me? Alguém tão racional? E ao olhar no espelho próximo ao computador, eu percebi que a minha aparência durante os anos havia mudado pouco. Arrisco dizer que o rosto apenas envelheceu. A essência continuou a mesma. Mas o emocional mudou. Amadureceu tanto, que tornou-se intolerante consigo mesmo.
Era resultado de uma série de fatores que não deixaram as feridas cicatrizarem-se em seu próprio tempo. Com suas próprias intensidades e amarguras. E eu, tornei-me isso: impulsivamente intensa e amarga. Tão amarga quanto café extra-forte sem açúcar. Tão forte quanto uma dose de tequila. E tão intensa quanto uma foda bem feita.
E vagando pelos pensamentos que nunca param e pelos alertas que recebi: eu não me assemelhava em nada com minha essência. Algumas horas conversando com alguém que me conhece -quase- tão bem quanto eu mesma foram suficientes.
Você deve pensar: “que tipo de pessoa nunca te aconselhou sobre os caminhos que você estava tomando?”, mas, a questão é que eu nunca estive tão pronta para ouvir esses conselhos e eu só notei que estava pronta depois de ouvi-los. Acho que, pela primeira vez em um muito tempo, eu sou capaz de reconhecer a luz que a Beatriz trazia mesmo cercada de tantas sombras, assombros e ruínas.
Acho que, mais do que nunca, eu estou pronta para encerrar esse capítulo doloroso. E arrisco a dizer, que estou até ansiosa para as próximas histórias das quais serei protagonista dentro dessa trama incrível que é ser eu.
Depois de pensar em tudo isso e dormir pouquíssimo, eu acordei com uma vontade de ver o mundo com meus olhos de essência. E foi isso que eu fiz. Ajuntei alguns documentos. Joguei uns trocados no bolso e encarei palco de grandes conflitos meus.
Senti o vento tocando de forma sutil meu rosto. Típico dia ensolarado de inverno. Não liguei para as dores físicas, porque era uma vitória que não houvesse dores emocionais.
Sacudi a poeira que já fazia parte da mobília do baú de recordações internas. Respirei fundo. Senti o ar esvaindo-se de cada milímetro dos meus pulmões. Controlei a vontade de respirar por alguns instantes e como um neném ao nascer, respirei profunda e lentamente. Destranquei o baú com as mãos trêmulas e pela primeira, em anos, a poeira não causou alergia. Sequer causou coceira.
E aí, eu descobri que para reviver algumas coisas não é necessário sofrimento. É necessário compaixão e amor pelo o que foi vivido, mas o que me invadiu foi gratidão.
E agora, eu só consigo perceber que o próximo passo é tão pequeno e tão sutil que na próxima respirada funda que eu der, eu já estarei no mais novo capítulo de toda intensidade que é ser eu. E, finalmente, poderei dizer, “lá vamos nós, de novo”.
