Experiência empreendedora: quando o gênero importa

Nunca me vi como empreendedora. Minha família costumava dizer desde cedo: “Faça uma carreira e preste concurso público.” Não os julgo, mas hoje sei que este não era o melhor caminho para mim.

Sempre lutei pela minha independência financeira e por ser dona do meu próprio nariz, mas a verdade é que nós mulheres enfrentamos diariamente contestações e conflitos de gênero que nos intimidam a todo momento. Se já é desafiador lidar com tudo isso sendo uma empregada corporativa , imagine estar à frente de uma startup ou de uma grande empresa.

Já trabalhei em empresas do setor público e privado, de diferentes tamanhos e setores e já vi de perto o assédio moral e/ ou sexual de muitas mulheres (a imensa maioria já passou pelo menos uma vez por esta experiência). E isso não parte somente dos homens, mas também das próprias mulheres.

Uma vez lembro que uma liderança (mulher) me pediu para que eu pensasse como um homem e me readequasse às vestimentas da corporação: era necessário usar roupas formais em tom X e Y, nada estampado e sapatos das marcas indicadas. Ela, no entanto, apesar de se sentir no direito de impor estes detalhes tão pessoais, havia deixado de ser ela mesma para chegar no topo. Existe uma baita diferença entre gerar lucro para uma empresa e realizar os caprichos da chefe, deixando de lado à própria personalidade. Eu optei por ser quem sou.

Sempre fui apaixonada pela comunicação, pela tecnologia e por novos desafios. Por que não empreender? Mas e se quebrar no primeiro mês? O que minha família vai pensar? E se, e se, e se? Tive inclusive um relacionamento que me colocou na parede: ou eu ou a empresa. Decidi que enfrentaria esta nova realidade disposta a lidar com as instabilidades no bolso e convivendo em um ambiente majoritariamente masculino.

Sempre achei inacreditável o ecossistema empreendedor e de novas tecnologias, mas a realidade é que os homens ainda dominam boa parte do mercado. Atualmente, cerca de 30% de todos os negócios privados do mundo são operados ou têm como idealizador uma mulher.

No entanto menos de 10% das empresas lideradas por mulheres recebe investimento externo. Falta representatividade feminina. Os números são desanimadoras, mas existem várias jovens mulheres que me inspiram diariamente, como a Carolina Rocha, da Pet Anjo, a Alice Cabral, do NaHora, a Camila Florentino da Celebrar e a Gabriela Balazini, da Remédio Certo. Todas mulheres, CEOs e que estão à frente de startups potenciais no Brasil.

Hoje vejo que é possível ser empreendedora, sem mudar seu jeito de ser, sem negar a própria feminilidade, sem a pressão absurda de se ajustar a determinado padrão. Uma vez ouvi dizer que “se a pessoa não pode ser ela mesma no ambiente de trabalho, ela não dará tudo de sí”. Ser empreendedor é ser você mesmo, é dar tudo de sí e acreditar no seu potencial e no seu talento. Afinal, é quando passamos a gostar de nós mesmas que atingimos a coragem de não tolerar desaforos.

Este um ano de experiência à frente de uma startup valeu mais que muitos anos de graduação ou morando fora. A mulher que dá a cara para bater no mercado (ainda mais de tecnologia) tem que aprender a lidar com o machismo e os tropeços que surgem no meio do caminho.

Com algumas situações desagradáveis e às vezes até indelicadas. Temos um longo caminho pela frente e infelizmente acabamos muitas vezes provocando reações de não aceitação, mas se estivermos decididas a enfrentar todas estas adversidades com bastante autoconhecimento e objetividade, com certeza seremos bem sucedidas.