A Cultura da “Diferentona”

desenho de Sabrina Gevaerd

Numa daquelas noites chatas de sábado reencontrei algumas amigas do ensino médio, e depois do terceiro litro de cerveja, todas nós já estávamos choramingando sobre nossos desastres amorosos de quem tem 20 e poucos anos.

Uma delas começou um longo discurso, entre tragadas de cigarro: ela não era como as outras garotas. Ela não gastava dinheiro em sapatos, nem falava sobre sapatos, ela nem pensava em sapatos. Essa coisa de passar horas se arrumando? Coisa de mulher fútil. Gostava de esportes e passava o domingo inteiro se preparando para o jogo do verdão. Também quase não tinha amigas mulheres, sabe como é, né? Mulher é fofoqueira, invejosa. Com ela não tinha esse papo furado de chorar, de draminha; ela era prática, rápida e não tinha tempo pra esse mimimi feminino.

Sexualmente então, ela tinha repulsa a apego. Transar e dormir de conchinha? Brega. Ligar no dia seguinte? Não precisa. Mas, estranhamente, ela ainda mantinha um ar puritano, de quem faz sexo por esporte, mas só depois do casamento; de quem diz que não se importa com o cara, mas ele não pode ser qualquer “cara”.

E então, entre discursos inflamados, olhos tristes de outras garotas que eram julgadas como “comuns” e um mundo um confuso demais, me veio como um clarão: ser uma mulher interessada por coisas “masculinas” (isso de futebol, carro, vídeo-game), te faz especial, rara para os homens. Com uma ressalva, claro, seja uma mescla perfeita entre desinteresse e santidade. 50% Madre Tereza 50% Bruna Surfistinha, e ainda tenha tempo pra apostar no Cartola e zerar GTA pela segunda vez.

Digo pra quem pode se sentir ofendida, está tudo bem em ler quadrinhos e não se importar com sua maquiagem! Está tudo bem em ser quem você é. Mas, juro, não está bem dizer que você não é como as outras, ou deixar que algum homem te diga isso; desvalorizar mulheres (que, pasme, são exatamente como você) pra conseguir destaque não é o melhor jeito de mostrar pra aquele cara que você é incrível, ou de mostrar isso a si mesma.

A competição feminina seja ela sobre quem é mais magra, quem tem o cabelo mais brilhante, quem tem o namorado mais bonito, ou quem é mais “diferentona” é um mal que nos consome sem que percebamos e, então, temos uma legião de inimigas desconhecidas igualmente perdidas no mundo.

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