Um desabafo

Após ler um (texto) de um tempo atrás, com um assunto que sempre deveria ter sido atual comecei a pensar sobre o passado e meu atual posicionamento sobre ser ou não ser negra.
Cresci filha de mãe negra e pai ausente por quase toda minha vida, pois esse pai e a sociedade em que vivemos, não acharam que ser pai era algo que deveria ter a mesma responsabilidade que minha mãe teve que assumir sozinha. Na verdade ela não estava totalmente só, sempre pôde contar com ajuda da nossa família, composta por uma maioria esmagadora de mulheres guerreiras. Na época, o pai dela e o irmão mais velho deixaram de falar com ela por anos. Por minha causa e porque ainda sendo nova, desempregada e não tendo o meu pai como um parceiro, ela escolheu me ter. Escolheu me ter também não deixando de considerar as dores de uma mulher que aborta num mundo que fecha os olhos, como se isso não acontecesse todos os dias. Numa sociedade que fecha os olhos pra todos os homens que abortam as responsabilidades que têm e não assumem os filhos que fizeram e nasceram.

Também sempre ouvi muitos elogios que me constrangiam sem que eu soubesse o porquê do meu constrangimento. Vou me explicar de forma lenta, descritiva e detalhista, pois só sei fazer assim.

Eu era a neném e a criança branca de uma mulher negra, que sofreu muito racismo, que já foi muito confundida como minha babá ao invés de minha mãe. Que era destratada ou ignorada por ser confundida como minha babá ao invés de minha mãe (repetitivo assim como o racismo nosso de cada dia), como se o fato de ser uma profissional cuidando de uma criança mudasse o tipo de tratamento que as pessoas deveriam dar a esta.

Lembro de falarem como eu era branquinha, que minha mãe tinha uma filha muito bonita, como se isso tivesse qualquer associação com o meu cabelo ou o tom da minha pele. Infelizmente sei que pra essas pessoas tinha. Lembro de pessoas que perguntavam e chutavam a etnia do meu pai -aquele mesmo, que não assumiu as responsabilidades de ter uma criança no mundo- como se isso fosse uma charada ou pegadinha. Lembro-me de muitas mãos mexendo no meu cabelo e dizendo que ele era liso e cheiroso. Conheci uma das expressões que mais odeio: “cabelo bom”. Lembro também da minha mãe sempre refutar essa expressão racista dizendo “Cabelo bom? Por acaso cabelo agora faz caridade, atravessa velhinho no sinal, pra ser bom ou mau?” enquanto eu ria sem graça. Eu me sentia muito sem graça, pela timidez, pelo incômodo, pela postura combativa de minha mãe com pessoas que pareciam estar elogiando de forma esquisita (racista mesmo). Eu não sabia, apesar de saber, que eu era tão diferente dela e que com ela o mundo era sempre tão diferente. Tive a fase de querer ser igual a ela, eu queria ser negra e ter o cabelo crespo, ter os cachos lindos que ela e minhas tias tinham. Mais ainda depois que ela se casou com um homem negro, que tinha um filho negro, que era meu irmão mais velho. Eu era o elemento estranho na minha família quando saíamos, as pessoas sempre faziam questão de notar e apontar isso.

Mas eu amava minha família, agora eu era como as outras crianças e até tinha esse cara que eu amava, que com minha mãe cuidava de mim, que eu tinha que chamar de pai, que me dava bronca e me batia quando achava que tinha que me educar, que não se despediu de mim nem nunca se preocupou com as consequências dessa falta de consideração de um dia ser pai e em outro achar que não era mais. Fui abandonada de uma forma terrível e fiquei devastada, mas minha mãe estava muito mais. Era eu e ela novamente. Voltamos pra casa da minha família de verdade. Nessa altura minha mãe já havia conseguido aprovação do meu avô, que voltou a falar com ela quando ela tava noiva ou casou, lembro de me contarem que eu tinha 3 anos quando meu avô me conheceu.

Vivi a vida toda numa casa de mulheres. Minha mãe, minha tia, minha tia-avó e minha bisavó. Tinha mais 3 tias que sempre cuidavam de mim, me levavam pra passear e pra conhecer coisas novas. Tive 7 mães diferentes e não troco nenhuma delas por meio pai presente. Tive 3 tios muito amorosos comigo, mas cheios dos privilégios por serem homens. Sobre estes eu escolhi não escrever, pois é sobre elas e graças a elas tudo o que foi construído ali.

Minhas mães/tias eram completamente diferentes. Minha bisavó era uma mistura de negra e índia, a filha dela (minha tia-avó, ou mãezinha), era branca, minhas duas tias mais velhas e a mais nova tinham a pele mais clara, a do meio e minha mãe eram negras. Mas na real todas somos negras, apesar de não sofrermos as consequências do mundo racista em que vivemos da mesma forma. Isso era evidente tanto nos relatos que eu ouvia delas em casa, como no que eu via quando saía com elas na rua.

Meu corpo foi mudando, minha pele e, bem mais tarde, meu cabelo. Ainda sim eu sempre passei por branca, principalmente ao lado de minha mãe. Lembro de situações onde as pessoas falavam isso e ela dizia “mas a boca, a gengiva e o bumbum é de negra, Beatriz é negra” e ao fazer isso ela se sentia na obrigação de comprovar me pedindo pra mostrar à pessoa isso. Eu me constrangia de ter que me mostrar, de ter que provar qualquer coisa pra qualquer pessoa e quando era obrigada a isso odiava minha mãe, odiava o fato de ter que provar que eu era filha da minha mãe, que eu era negra. Mostrar minha gengiva pra mostrar pra pessoa racista que eu era negra também.

Eu cheguei na adolescência e com ela veio o fim da vontade de ser igual à minha mãe, o que muitas vezes se torna ser o oposto. Comigo não foi diferente. Entrei numa escola particular cara da minha cidade, graças às inúmeras vezes que minha mãe foi lá chorar, implorar uma bolsa, pra que eu pudesse estudar onde quase toda minha família estudou (também com bolsa) e assim ela conseguiu que eu ganhasse um desconto de 50%. Estava feito e eu tava feliz. Lá eu estava, numa escola gigante, virei um número no meio de mais de mil adolescentes, que em sua grande maioria eram brancxs, classe média/classe média alta/muito ricos e em esmagadora maioria racistas. Professorxs negrxs eram pouquíssimos comparados à quantidade de professores na escola. Alunos negrxs então nem se fala, correspondiam a 3% no máximo, se isso tudo. Mas vale lembrar que eu não era considerada negra, nessa época, nem pensava mais em me considerar negra e acho que muitxs ali, até hoje não se consideram negrxs. Eu não era negra lá, mas eu era negra e via como ser socialmente negrx mudava tudo. Eu ouvi, vi e me silenciei durante toda a adolescência às toneladas de racismo diárias que as pessoas sofriam e faziam. Eu me doía, mas já tinha sofrido bullying durante toda a infância por ter um sinal na boca, não queria ali sofrer mais ainda por me meter entre a crueldade do racismo que eu percebia sem ser alvo direto. Eu fui me fechando mais e mais, tentando me adequar mais e mais, fingindo que não era comigo e ficando anestesiada, rasa, numa montação extremamente desconfortável, que foi se tornando uma dor que eu não compreendia. Eu era uma farsa embranquecida.

Como estou pela primeira vez escrevendo sobre isso, não vou nem me estender sobre o fato de desde a infância eu ser bissexual e só ter tido a coragem de assumir pra mim e pra qualquer pessoa, depois de muito mais velha. Me envergonho ao lembrar do quanto eu reproduzi machismo, racismo, gordofobia, homofobia pra tentar ser “normal”. Na época eu não queria nem pensar pra mim que eu era bissexual e negra num mundo que desde cedo se apresentou extremamente racista, homofóbico e machista. Eu sempre detestei a escola e quase tudo que ela representava. Tentei me distrair nos esportes mas disciplina sempre foi uma dificuldade, então eu passei a evitá-la ou quando estava lá, não me dedicar às regras que a escola exigia. Isso me trouxe muitos problemas lá e com a minha mãe. Nossa relação chegou a extremos tão pesados na adolescência por conta de eu não aceitar mais autoritarismo, que toda a rebeldia que eu deveria dedicar à quebra do sistema que me engolia foi direcionada às brigas que nós tínhamos. Muitas vezes ela era injusta nas comparações com os outros, nas reações violentas, na forma agressiva de falar comigo, no desespero de cuidar sozinha de uma adolescente. Muitas vezes eu era injusta. Tanto na falta de compromisso com os esforços dela pra me criar e me educar tendo que trabalhar e estudar ao mesmo tempo, quanto nas respostas atravessadas, nas insistências fúteis em pedir coisas caras, de marca, fora de nossa realidade. Eu também devolvia as cobranças que eu recebia em cobranças mais injustas ainda. Eu tinha o tempo todo que ser o que eu não era e isso me dava raiva, me dava preguiça, me surtava. A mesma escola burguesa que me deu estrutura de fazer um vestibular quase em equivalência com os outros alunos classe média, também fez uma lavagem cerebral, uma inversão de muitos dos valores que eu tinha aprendido. Baseada nessa escola de ‘qualidade’ cheguei a discutir as cotas na UERJ com minha tia e minha mãe, me enganei de tantas formas que não consigo nem contar. Eu fui racista ao fazer isso tudo, eu me perdi de mim. Lá pelos 16/17 anos eu tava tão mal na escola que mesmo sem nunca ter sido reprovada, minha bolsa não foi renovada. Antes disso eu já detestava aquele lugar e, de certa forma, os benefícios de estar ali. Os amigos que eu tinha feito não compensavam toda aquela inadequação que eu sentia, toda a mentira que eu falava, pra mim e pros outros. Fui fazer o terceiro ano num curso pré-vestibular, isso abriu caminhos pra minha mente e minha consciência. O princípio de liberdade que eu tinha ali, aliados a muitos erros e ao fato da minha mãe ter se mudado pra outra cidade após os meus 18 anos, me ensinaram mais do que todas as repressões e silenciamentos dos quais fui vítima, dos quais somos vítimas e também algozes quando tratamos das dores dos outros.

O que tudo isso tem com ser negra e com o texto maravilhoso que eu li? Ao demorar muito pra resolver de fato fazer faculdade, ao entrar na faculdade e na diversidade que ela proporciona (ainda que muito precária e muito distante de ser acessível e justa a todxs) eu compreendi como o processo de desconstrução é um processo lento e diário. Ser negra e se aceitar negra no mundo racista, foi e é, um processo longo e diário. Ser mulher, se aceitar mulher, se fortalecer como mulher também é. Ser bissexual, se aceitar bissexual, se colocar como alguém livre que pode e quer se relacionar com quem quiser, independente dos padrões normativos, também é um processo doloroso, interminável, diário e que exige muito amor por si mesma e pelas pessoas que nós amamos e que ainda não compreenderam isso.

Diversidade de gênero, racismo no Brasil/mundo, classicismo, segregação, homofobia, lesbofobia, bifobia, transfobia, gordofobia, machismo, misoginia…nada disso é lenda. Existe de forma real e prática na vida de todxs. Isso molda personalidades, isso muda as pessoas, isso tira vidas todos os dias em todos os lugares. Melhoras pra todxs nós.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.