A dança

Aquilo já não me pertencia mais. O medo da tempestade era pequeno perto da calmaria que vinha depois dela.

É o que você aprende depois de te estraçalharem tantas vezes. Recolher os pedaços vira algo automático. Você levanta, pega o que sobrou e segue. Meio caindo, meio chorando, meio bêbada e podre em meio ao caos.

Mas você sobrevive.

Você sempre sobrevive.

Mesmo que levem aquele seu sorriso, aquele seu olhar leve e o gingar da sua saia florida. Mesmo que te decepem as mãos, te calem a boca, te firam o ventre. A sua substância já não é mais líquida, já não escorre pelos poros e molha. as calçadas sujas.

Você é carne agora

é osso

é nervo.

Pele que se corta, mas regenera um tempo depois.

Você respira, você grita, você chora.

Você VIVE.

E essa resistência de flor que cresce no asfalto, isso, ninguém tira, isso ninguém leva.

Porque você sabe, é fácil ir ao inferno.

Mas eu?

Ah, eu tiro o Diabo para dançar.

Dois pra lá, dois pra cá

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