A mulher que amou o homem que viu a face de Deus

Ali no quarto em que as paredes respiravam, ela encarou o homem que viu a face de Deus.
Reuniu sua coragem e o encarou nos olhos enquanto o tomava pelos braços. Um abraço sutil e denso.
Um abraço de quem sabe, de quem sente. Havia um espaço naquela cama, naquele corpo que não a pertencia. Que jamais conseguiria chegar perto o suficiente para preencher, poderia fazer mil estripulias, mas não cabia a ela conquistar aquele território .
Ela não tinha aquele amor. Ela não era aquela pessoa. E não queria ser. Mas naquela cama, naquela noite ela entregou algo muito maior, algo independente do desejo dos homens.
Ela abriu as pernas como se abrisse sua casa, o convidou com doçura, mesmo que o Diabo estripasse sua alma e acordasse o inferno inteiro para que pudesse degustar com ele o banquete da sua carne.
Tirou suas roupas como se revelasse a fragilidade de si, como se despisse o tempo e se tornasse a esposa de Cronos.
Era isso que tinha a oferecer, um corpo que era casa, uma alma que era nua, uma crueza desprendida que exigia uma coragem que ela não sabia que existia.
Tinha a oferecer os nanossegundos do agora
O presente
O inteiro
Si mesma.
Um texto não terminado
Tudo o que ela tinha
E o que lhe faltava, também.