Chuva ácida
Ouço sinos ao longe, a grande catedral da Sé marcou as seis badaladas no ponteiro e sei que é hora de ir para casa.
Meus passos frouxos entregam um corpo estraçalhado. Hoje eu volto a pé. Hoje caminho pela cidade porque me parece impossível pegar um vagão de metrô e não lembrar de você. Do seu sorriso frouxo enquanto se pendura como uma criança nos mastros, do teu cheiro manchando a minha roupa. Do teu vestido novo.
Hoje as lembranças me banham como chuva ácida. Me arrancam o couro, a pele, os pelos. Me penetram os nervos e me deixam exposto a esse cinza melancólico que lavou todas as cores de mim.
Você partiu e eu fiquei. Eu bebi, eu ouvi Tom Waits, liguei para todas as minhas ex-namoradas, trepei com 3. Chorei depois de gozar com a última, porque aquele era um corpo.
Porque eu era carne.
Porque eu era eu
E ela não era você.
Esse chão
Essa estação
Esse cheiro
Esse bueiro
Esse medo
Esse desejo
Essa fome
Tudo isso é
Tudo isso de alguma maneira existe sem você
Então me explica porque é tão difícil respirar?
Talvez não seja saudade menina
Talvez seja só poluição
E amanhã vai passar.
Arte de Gerard Russo