Eu sou uma mulher difícil de amar

Rene Magritte: The Eternally Obvious
A gente quebra por dentro e o mundo gira lá fora, essa é a primeira lição que eu vou ensinar para a minha filha. A segunda é: não seja como sua mãe.

Então pela primeira vez eu acreditei no que você me falou, que eu jamais seria feliz com ninguém. Que a minha maldição era uma cama vazia e um coração pesado. Que o meu excesso de palavras entre os dentes e essa minha mania de viver em alta potência só seriam um atrativo erótico para noites quentes de carnaval, que assim que provassem da carne descartariam a alma, ela é pesada demais para se misturar no dia-a-dia.

Então eu me vi perambulando na chuva de São Paulo procurando um abrigo que eu sabia que jamais encontraria, amor, você disse, não era para pessoas como eu. E eu te perguntei o porquê e você respondeu que eu era uma cidade velha prestes a se tornar ruína e que nem mesmo as flores do asfalto que eu plantei tão cuidadosamente, antes de você chegar, me salvariam do desastre humano que eu havia nascido.

E eu acreditei.

Por que todos os homens que eu amei saíram pela porta dos fundos para comprar cigarros imaginários e eu chorei a partida de cada um deles, velei os corpos dos amores mortos, fiz um cortejo fúnebre de uma pessoa só e assisti a indiferença do mundo perante a minha dor. A gente quebra por dentro e o mundo gira lá fora, essa é a primeira lição que eu vou ensinar para a minha filha. A segunda é: não seja como sua mãe.

“Você é uma mulher difícil de amar” — ele disse com as botas na porta e a jaqueta nas mãos.

Eu sou uma mulher difícil de amar

Eu sou uma mulher difícil de amar

Eu sou uma mulher difícil de amar.

Eu sou uma mulher difícil de amar.

Eu digo

Eu repito

Eu saboreio as suas palavras e as engulo como um prato frio.

Para assimilar a verdade, para acostumar o meu corpo com o som duros das palavras. Para absorver e me desmanchar.

E eu repito esse mantra, em cada esquina que passo, por cada homem que eu amo, por cada corpo que eu velo.

E desisto, simplesmente desisto de qualquer explicação, de qualquer tentativa de ser, de qualquer caixa quadrada que pareça perfeita para meu corpo redondo. Eu aceito a sua verdade,uma fé cega. Esse é meu último ato de amor, a única maneira pobre e triste de te incorporar em mim.

Mesmo que isso signifique uma cama cheia e uma alma vazia.

Eu te engulo, eu te aceito. Eu me rendo.

Então é um sábado frio e eu me enrolo nas cobertas puídas

- Eu sou uma mulher realmente difícil de amar, meu amor

Eu digo, para um homem que não é você.

Enquanto ele se veste, as duas da manhã, para comprar cigarros.

Eu sou uma mulher difícil de amar

Eu sou uma mulher difícil de amar

Eu sou uma mulher difícil

Eu sou uma mulher

Eu sou

Eu.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.