Sobre o que eu criei de você

Porque no dia que você derrubou todas as minhas muralhas eu segurei seu rosto por entre os dedos e orei.

Então você entrelaçou sua carne na minha e eu sabia que estava perdida.

Eu soube no nanossegundo em que você olhou nos meus olhos e eu vi aquele castanho que parecia abismo, me agarrando nas flores para não cair, sentindo minhas mãos suadas deslizarem e sofrendo a queda do meu corpo nesse mistério que é você.

Eu soube sobre o que falavam os deuses quando falavam de amor, soube das canções, dos botecos, da cachaça, das feridas que sangram e ardem e que não se pode fazer nada a respeito delas se não escrever.

Então escrevo, como forma de te abraçar com essas palavras, te tocar de leve, quase como uma pluma, com esse punhado de frases e intenções vadias.

Confesso que ainda tenho seu casaco jogado no canto do meu quarto, como uma fotografia de saudade que é difícil de desviar os olhos.

Que te carrego como um livro surrado na bolsa : lido, rabiscado e absorvido pelos meus nervos, neurônios e sinapses.

Até tenho a impressão às vezes que teu cheiro foi tatuado na minha pele e que teu gosto, tão peculiar, ainda preenche minha boca e salta através das palavras, me fazendo saborear o mundo de outra maneira.

Mesmo assim

Mesmo com essa presença-ausência de você, os dias correm sem a piedade do tempo. Ainda é terça e chove, então daqui de longe, nessa selva de pedras eu te espero e te desejo uma saudade tão bonita quanto essa minha.

E que a sua poesia seja mais forte e seus braços mais largos, para segurar o universo de um corpo perto do seu. Que você saiba usar a delicadeza dos segundos antes de dormir, que conheça o espaço mínimo e elétrico de duas bocas antes de se beijarem e que principalmente seja mais forte do que eu. E caso conheça alguém por quem valha a pena escrever , que tenha mais força e mais palavras , sabendo que até as rimas de amor tem prazo de validade e precisam ser gritadas a tempo.

É isso que te desejo menino-passarinho.

Todo o mundo literário que eu não pude te dar.

Toda a saudade sua que não pude sentir, mas que tão ironicamente, eu pude escrever.

Você fica com as palavras, eu fico com esse cinza.

Sabendo que toda vez que chover, eu vou pensar em você.

Imagem: Sleeping Couple – Egon Schiele

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