Sobre uma caixa de escuridão também ser um presente

Eu não poderia te explicar o peso da poeira nas minhas costas no dia que bombardearam a nossa cidade. Eu sentei no chão destroçado e chorei pelo nosso filho imaginário. Porque o amor chegou e partiu como uma guerra. Escancarou as janelas, tomou minhas mulheres, derrubou sem dó as paredes das casas dos meus pais e então, depois do território conquistado, bombardeou o forte que eu havia construído para ele.
E nos escombros de cartas-de-amor que eu nunca te enviei, eu chorei pelos dias que nunca vivemos.
Por aquele outubro que não choveu
Pela viagem para a Islândia
Pelos poemas que meus dedos nunca escreveram no caminho da pinta das suas costas.
Por todos os segundos que as gotas de chuva tinham o som do seu nome.
Por cada letra-sentença-poesia que não fomos nós.
E mesmo com a dor que pingava dos meus cabelos molhados, Setembro chegou e eu tive que recolher as tábuas, pintar os vasos e plantar novas flores. No meio do caos-arrumação que se tornou as estações, eu achei a caixa de escuridão que você me deixou e nesse momento eu reconheci o presente.
Porque as sombras das noites solitárias de uma cidade abandonada, me ensinaram que o amor também devasta, mas que o tempo cura. E que mesmo os segundos infinitos trabalham incessantemente na costura de uma carne ferida. E mesmo remendada, mesmo ainda sangrando, sua armadura de nervos, pele, homem, tesão e suor ainda resiste.
E esse é o maior presente que amor pode me dar: a capacidade de usar minhas próprias pernas, mesmo que quebradas, e andar.
O amor devasta.
Mas ele ensina.
E mesmo com o Diabo no seus calcanhares, você sobrevive.
