Um coração vagabundo e suas instruções de uso (ou o final da mulher que amou o homem que viu a face de Deus)

Jean Faucheur

Então eu te disse que pessoas são como oceanos, águas profundas que vão se adaptando em curvas, pedras e montanhas. Que elas se esgueiram pelos pedregulhos do asfalto e mesmo sem chuva fazem brotar flores selvagens do chão.

Eu acariciei teus cabelos e falei sobre os contos dos sagrados espíritos, que habitavam a Terra antes de nós e você ouviu com paciência as minhas reticências confusas. E até mesmo quando te bordei uma cama de poesia, você sorriu. Não se assustou com a quantidade de nós, linhas, histórias, passados coloridos sobre um lugar que eu gostaria de ter um dia ter chamado de lar.

E te contei que nunca aprendi que ir para guerra atrás do amor é um suicídio brutal, que não se pode fazer das pessoas lar. Braços não são paredes, não são abrigo para quando a tempestade chega e a gente não quer se molhar. Peitos, cabelos e pernas, jamais serão tetos para a nossas necessidades pueris. Serão apenas pequenos pontos em um mapa gigantesco, pequenos lugares de ancoragem temporária.

Mas isso eu não te contei, da noite que eu passei insone ao seu lado, que eu esperei até o nascer do sol para subir na sacada. Por que naquele dia, minha pele ardia, coçava, queimava tão fortemente que eu achei que iria trocar de pele e ser outra pessoa assim que o sol tocasse o ponto mais alto do céu.

Do seu céu.

Mas o dia chegou, você acordou e eu fiz café. E você me contou que teve um pesadelo que não se lembrava e eu te falei do sol que eu vi, falei como se fosse meu, como se me pertencesse. E você acreditou.

Escritores mentem falando a verdade.

E de todas as coisas que eu te contei, a mais importante eu omiti.

Eu não sou a mulher que amou o homem que viu a face de Deus. Eu jamais poderia ser, porque me colocar nesse papel tão pequeno seria ignorar a caneta que pende em meus dedos. Seria renegar aos deuses as palavras que escorrem pelos meus seios e viram poesia

Eu sou as torres que se erguem do chão frio, que do cimento não abrigam cores, mas uma fortaleza cinza e segura.

Eu sou a letra-corpo-poesia de um poeta que você não conheceu. Eu não era a musa, eu era a tinta. Entende o que quero dizer?

Eu nasci fogo, nasci tempestade. Nasci de Aruanda e fiz do mundo o meu lar.

Eu jamais poderia fazer você de casa, jamais poderia chamar a sua pele de lar.

Eu já tenho um.

Feito de tripas, veias, nervos, carne, letras e coração.

E que mesmo sendo uma casa bagunçada e necessitada de reparos, você pode visitar. Eu te convido, eu te faço chá e quem sabe, menino que amou a moça que tinha os olhos de Deus, eu possa pedir para você ficar.

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