Como se só houvesse amanhã

Não é raro o dia começar com meu coração acelerado. Algumas vezes na semana meu corpo me desperta cerca de 20 minutos antes do alarme com a certeza absoluta de que eu perdi o horário e estou atrasada pro trabalho.

Retomo minha respiração e levanto. Vou ao banheiro pensando no que vou vestir. Ponho a roupa anotando mentalmente o que preciso pegar. Separo minhas coisas com a mente focada em lembrar onde está a chave, onde está a comida que eu pretendo levar.

Saio, enfim, sempre preocupada com o horário.

Pela rua, só sei olhar para frente. Procuro onde está meu ônibus, se já passou, se demora, se vou ter que correr. Se ele me parece perto, saio em disparada e frequentemente sou recebida com olhares de estranheza lançados pelas pessoas no ponto. “Não precisava ter corrido, não tava tão perto”, ouvi de uma senhora certa vez.

No ônibus, ouço música. Andando, ouço podcasts. Essa ordem eu estabeleci há muito tempo. Se ela não é respeitada por algum motivo, sinto um incômodo tremendo e um aperto no peito.

Eu costumo levantar para dar sinal com uns três pontos de distância. Sinto muito medo de não conseguir chegar perto do botão a tempo, deixar a parada passar e ir parar em algum lugar completamente desconhecido.

Salto rápido e, enquanto troco de música pra podcast, vou andando e olhando para os mesmos lugares. Gosto de reconhecer alguns pontos como se fossem checkpoints de um jogo. Passar por eles me dá a certeza de que estou chegando.

Fixo o olhar no lugar onde trabalho assim que um mínimo pedaço dele aparece na minha visão. Se ainda está fechado, imagino que alguém tenha tentado entrar ali e eu não estava para abrir. Se algum dos meus chefes já abriu, sofro com a certeza de que eles acham que me atrasei. Começo minhas atividades pensando no horário de saída. Saio, no final do dia, checando o horário de entrada do dia seguinte.

Chego em casa fazendo contagem regressiva. Faltam cinco coisas para eu dormir.

Janto.

Quatro coisas.

Banho.

Três.

Tiro minhas lentes de contato.

Dois.

Escovo os dentes.

Um.

Apago a luz.

Zero.

Zero.

Será que coloquei mesmo o despertador? Melhor ver. Vai que eu perco a hora amanhã e me atraso.