Quão desesperadora é a constatação de que o amor não é garantia de felicidade? É curioso como as nossas ideias a respeito das coisas vão se moldando com o passar dos anos. Eu costumava pensar que, onde havia amor, deveria necessariamente haver tentativa, ou melhor: deveria haver sucesso. Eu costumava pensar que amar alguém seria motivo o suficiente pra querer desesperadamente fazer dar certo. E fazer, de fato. Alguns anos se passaram e me doeu perceber que o amor não é garantia de nada, além dele mesmo. O amor requer vigília. Em tempo integral. Amar é trabalhoso, nada está dado nessa dimensão. Amor é construção que não constrói nunca, que tá sempre em movimento. Amor é necessariamente abrir o peito para aceitar a possibilidade da perda, da dor. E amar alguém não é garantia de que serão felizes juntos. Há amor que requer distância para existir.
Já me deparei, na vida, com duas certezas que coexistiam no tempo e no espaço: eu amava aquela pessoa; eu jamais seria feliz ao lado daquela pessoa.
Como se escolhe, nesse cenário? A gente opta pelo quê? Abrimos mão do amor? Abrimos mão da felicidade? Abrimos mão da pessoa, ou abrimos mão de nós mesmos?
Não existe resposta certa pra isso, entenda. A escolha que eu fiz não necessariamente o outro faria, se se deparasse com o mesmo cenário. Eu acho legítimo escolher ficar, escolher amar e aceitar a inevitabilidade do fracasso. Amar requer coragem, assim como ir embora. É legítimo também que se escolha ir quando o ficar é desgastante. Quando ambos os caminhos – ficar ou ir embora – são difíceis e dolorosos, não há como hierarquizar a coragem necessária para tomá-los.
A pessoa que eu mais amei na vida curiosamente – ou nada curioso – foi também a pessoa com quem a minha felicidade era mais incerta. Ou melhor, improvável. Esperei o que jamais receberia. Quis ter o que o outro não podia me dar. Não por desamor e nem por desafeto, mas simplesmente porque o quê eu queria receber ele não tinha para oferecer. Não era comigo, era com ele. Era uma limitação do outro, e eu demorei para perceber que eu não tinha nenhuma relação com o limite alheio.
Temos que parar de colocar na balança as formas que temos de sentir. O outro pode não te amar da forma que você o ama, e, ainda assim, amar da forma que ele ama. Ele ama da forma que ele sabe amar. Ele ama da forma que ele aprendeu a amar. Quase tudo nessa vida é ensinado e aprendido. Quase tudo o que somos é construção. Eu não acho que o amor seja uma dessas coisas, mas eu acredito que a forma que se ama é, sim, construída singularmente.
Eu aprendi a amar da forma que meus pais me amaram, da forma que eles se amaram, e amam outras pessoas. Aprendi a amar da forma que a minha avó me contava histórias, me colocava no colo. Aprendi a amar com o cuidado que a minha irmã tinha comigo. Com os meus amigos do jardim de infância, com os meus animais de estimação, com o sol que entrava pela janela da minha casa no começo da tarde e que me deixava tão genuinamente feliz. A gente aprende a amar com a soma de todas as experiências que nos fizeram e nos fazem humanos. E outro ser humano jamais terá a mesma soma de experiências que nós temos.
O que significa que o amor existe para todos, mas a forma que se ama é diferente para cada um.
Eu amei desesperadamente uma pessoa que amava muito diferente de mim. E que, por isso, jamais me amaria da forma que eu precisava ser amada. Esse amor me trazia insegurança, tristeza, angústia, mágoa. Esse amor frustrava todas as vezes, sem exceção, a ideia que eu tinha para mim sobre como é amar.
A felicidade já não era possível naquele cenário, onde eu recebia muito menos do que eu acreditava dar. Porque a minha reciprocidade não era a mesma reciprocidade da pessoa que eu amei. E nós tínhamos entendimentos muito diferentes sobre a vida, sobre o relacionamento, sobre a simplicidade do estar junto. Sobre o companheirismo.
O amar às vezes é despreparado, é ingênuo, não sabe se pra direita é melhor que pra esquerda. Não sabe se em cima, se embaixo. Se não for guiado, não sabe se mover. Permanece estático, esperando o seu movimento para que saiba minimamente o que fazer. E, para quem espera muito, o amar despreparado fere. Machuca mesmo. Dói a alma porque parece pouco. E, às vezes, nem é. Mas às vezes é, também, e tá tudo bem. Às vezes o nosso amar é grande demais para o amar do outro, e a felicidade, nesse caso, não vê possibilidade de sucesso. A felicidade não encontra espaço no total desequilíbrio.
E não pense você que o amar despreparado tem idade. Não tem, não. Não é porque tem 17 anos, não é porque tem 26, 42 ou 68. O despreparo não se dá por si só. Se dá somente em relação. Um amar pode ser despreparado para mim, mas completamente preparado para a Amélia, minha vizinha. Pode me machucar muito, mas trazer paz ao José, dono da floricultura. Não é idade, entende? É desencaixe. É desenlace. E, por isso, amar não garante felicidade. Não garante paz, estabilidade emocional e nem reciprocidade encaixada. E, se você vive nesse planeta e se relaciona com outros seres humanos, desculpe informar, mas você vai ter que lidar com isso. Porque isso faz parte do peso de ser pessoa, e não há para onde fugir. Tem horas em que é necessário pegar toda a nossa bagagem de vida, fazer a mala, lavar o rosto, secar as lágrimas e dizer: esse amor eu não quero, nesse amor eu não vivo. Mas é também necessário abrir o peito para a tentativa. Porque, dentre todos, encarar a possibilidade do caos e dizer “eu vou bancar isso”, é o ato de maior coragem que podemos ter. E é também uma forma diferente de dizer: eu quero viver.

