Sinto que, depois de todos os meus anos de vida, só agora eu começo a parar para refletir sobre a minha existência. sentar comigo mesma, conversar, falar e ouvir. chamar pra um café. levar pra passear. durante um bom tempo eu estive tão intensamente mergulhada na presença de outro alguém que, agora, saborear a minha companhia é uma experiência nova, assustadora, às vezes. eu to vivendo o início de algo, posso sentir. sinto isso como quem sente que algo bom está por vir. recentemente recebi visitas que não me fizeram bem. na minha casa, no meu corpo, na minha vida. mas nem sempre nossas escolhas são assertivas, e tudo bem. tempos atrás eu me culparia, me castigaria com pensamentos injustos e agressivos contra mim mesma. hoje, não. hoje tudo bem eu errar. eu me perdoo. o mundo não vai acabar porque eu poderia ter agido melhor. amanhã o sol ainda vai nascer bonito, meu vizinho ainda vai me dar bom dia, minha mãe ainda vai me ligar pra saber se eu me alimentei bem e se estou precisando de canecas novas na minha casa, já que ela encontrou uma loja em promoção, eu ainda vou sair pra caminhar na praia, fazer fofoca e gargalhar com os meus amigos, talvez tenha um ou dois estresses diários, provavelmente algum número de São Paulo ainda vai me ligar procurando uma tal de Elenice -quando meu nome não é esse -, meu gato ainda vai ser o motivo do meu sorriso pela manhã quando for me acordar pedindo carinho. percebe como a vida continua rolando independente dos nossos pequenos erros cotidianos? no fim, eles não importam muito. e talvez não sejam erros nem acertos, seja só a vida sendo vivida e aprendida. hoje, me conheço mais do que ontem, mas, às vezes, me pego no erro de achar que já me decifrei por completo, que já me sei inteira. mas, aí, vez ou outra acontece algo inusitado e eu olho pra trás, reconhecendo que poderia ter feito melhor. se realmente me conhecesse inteira, não precisaria olhar pra trás, pois não existiria erro. mas, nesse caso, qual seria a graça? dessa forma, me permito achar defeitos. hoje, não convido qualquer um pra me visitar. não gosto. ando sem paciência pra insistir no encaixe, ando sem paciência pra qualquer companhia que não a minha própria. porque me gosto demais, e tenho gostado de passar meus dias comigo mesma. e me pego com a seguinte reflexão “essa companhia é tão boa quanto a minha?” se a resposta for não, prefiro me chamar pra sair, para ver um filme, ir no cinema, na livraria, me levar para passear pela orla da praia, no parque, ou na calçada do meu bairro mesmo. só sair de casa, ver gente, respirar. ando sem paciência. não quero ter que me forçar a encontrar um assunto no fundo da minha cabeça para preencher um silêncio constrangedor que eu não quero sustentar com um outro alguém. não quero ter que me censurar porque o outro não entenderia os mil pensamentos que existem na minha mente, vezes ansiosa, vezes encantadoramente infantil. não quero estranhos na minha casa. não quero estranhos no meu corpo. não quero visitas superficiais que não suportam seu próprio silêncio, o constrangimento. ando sem paciência. nos últimos meses conheci pessoas com as quais não me encaixei. eu tentei, insisti ser tocada, ser afetada. mas não fui. por que fazemos isso com nós mesmos? tentamos arduamente afetar e ser afetados por pessoas para que não estejamos sós. estamos tão absurdamente amedrontados com a solidão que nos submetemos a receber visitas banais, carnais, rasas. por que eu insisti? por que eu permiti? porque, naquele momento, foi o melhor que eu pude fazer. e tá tudo bem. ontem foi ruim, hoje foi menos pior, semana que vem, quem sabe! talvez, não fossem essas visitas, eu não reconheceria o quão deliciosa é a minha própria companhia.

