Ele me chamou de canto, repentinamente, como que um pensamento de súbito viesse à sua mente e, sem filtros, transparecesse no ato de apontar com os olhos o canto da sala em que todos conversavam, onde ninguém se ouvia.
Vamos sair daqui?
Agora.
O que mais me impressiona nele é esse jeito completamente excêntrico, sem nenhum toque de desequilíbrio. Ele consegue mesclar loucura com sanidade, algo que deixa meus olhos com aquele brilho de criança que olha o brinquedo dos sonhos pela vitrine de uma loja cara. Apenas um vidro separa a criança do sonho. O que me separa do meu desejo sou eu. Eu e minha armadura de vidro.
Gosto de você por causa disso. Sou de lua e tu sempre dança conforme minha fase.
Falou ele quando já estávamos na rua. Eu olhava pra lua e pra ele, pra ele e pra lua e me perguntava qual fase equivalia a cada uma das personalidades do homem que, há algum tempo, não saia dos meus pensamentos. Lua nova, minguante, crescente e cheia. Conhecia cada pedaço dele, mas de alguma forma, quando tentava juntá-los, nada se encaixava. Era isso o que fazia com que fôssemos como imã: o mistério que ele era pra mim e minha necessidade de soluciona-lo.
Que nada, acho que simplesmente acabamos sempre querendo as mesmas coisas.
Não, não mesmo. Sei disso porque ainda somos só amigos.
Sabe, eu gosto da noite. Acho que ela representa poder. A lua é o símbolo a noite. De alguma forma, sempre que andamos juntos pela madrugada, sem saber pra onde ir e sem saber onde isso vai dar, é como se a caminhada representasse o nosso impasse – ambos precisam caminhar juntos pra dar certo, mas, embora tentemos, não conseguimos chegar a lugar algum.
Já tentamos, ou você esqueceu? Esqueceu dos anos longe um do outro, das conversas em hiato e dos beijos interrompidos? Você fala como se não desse certo por minha culpa, apenas.
Como uma gangorra, a vida nos leva para altos e baixos, sempre conectados, mas nunca realmente juntos. Um espaço nos separa, o tempo por fim nos reune e a solução nunca vem à tona. Simplesmente parece que não é para acontecer. Ninguém consegue explicar.
Silêncio.
Quer comer alguma coisa?
Olho na tela do celular, nenhuma notificação. Na dele provavelmente também não há. É por isso que estamos aqui. Somos a reserva um do outro. Não é como se bastasse outro alguém aparecer para sermos rebaixados à segunda opção, é só que sabemos que é melhor tentarmos com outra pessoa do que insistir em algo sem futuro. Mas nenhum de nós nunca conseguirá desistir.
Vamos no seu João.
Pra variar…
Ali sentamos, como em várias outras madrugadas. Como depois de várias outras conversas inacabadas. Como em diversos outros dias.
Você sabe que eu te amo. Como vamos resolver isso?
Seguro suas mãos, geladas por conta do copo que segurava até há pouco. Inclino meu corpo sobre o dele e me entrego ao beijo com todo o meu ser. Como tudo o que eu sou.
Vamos continuar tentando.
Olho pra cima. A lua parece brilhar como o sol.
