São, São Paulo

Saudade.

Saudade é uma palavra única, dizem por aí que é considerada umas das mais difíceis de se traduzir. Que bonita que é a língua portuguesa.


Pois é, hoje bateu a saudade.


Há quase dois anos me mudei para a Suécia e deixei para trás minha vida em São Paulo.

Engraçado que ao olhar para dentro do coração, achei no meio da saudade a voz da minha querida amiga Ingrid cantarolando “São.. São Paulo, meeeeu amor”, enquanto dirigia pelas ruas do Paraíso em direção a Avenida Paulista.

Adorava ser transeunte em SP. Mergulhava o olhar nos prédios, nas pessoas tão diferentes, nos grafites. Uma beleza diferente em cada pedacinho de caos. Nenhum dia era o mesmo, enquanto muitas vezes no ônibus, no metrô lotado ou no carro:

— Que cidade filha da puta!

— Perdi a conta de quantas vezes declamei palavrões ao ficar presa no trânsito.

Engraçado que hoje penso no universo do carro em SP, quantas conversas profundas enquanto dirigia ou acompanhava meus pilotos. Como fortaleci amizades dessa forma, como gastei a voz cantando alto com Camila, com Livia, com Ingrid, com Mauricio, com um monte de gente querida.

Foi nessa cidade que me tornei independente, adulta, que me reinventei diversas vezes.

Em SP conheci meus melhores amigos, trabalhei na emissora mais foda de todos os tempos, experimentei os pratos mais saborosos, assisti aos meus filmes favoritos, fui aos shows mais emocionantes, me apaixonei: Os 5 anos mais intensos e mais felizes de toda a minha vida.

Sim, é claro já chorei, reclamei, sofri em SP. Mas sofri sempre com sol, com pessoas maravilhosas ao meu redor, com trânsito, com calor. E o calor mais importante de todos:

o Calor Humano.


Criolo proclama em um linda canção que não existe amor em SP.

É verdade Brasil, as coisas não andam fáceis. Quanta gente me falando para não voltar.

Mas aqui de longe, posso afirmar que não tem alegria como a do brasileiro. Não tem mistura cultural, não tem tanta graça, não tem comida tão boa, não tem sorrisos de estranhos, não tem bom dia do motorista, não tem padaria, não tem frutas frescas e não tem sol.

Com o coração apertado de saudade me pergunto o que é oportunidade: ter acesso a qualidade de vida cheia de solidão gelada ou viver em bagunça, mas aquecida por todos esses defeitos que se transformam em vida?

Que saudade, São Paulo, meu amor.

Estocolmo, Janeiro 2016
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