O início do movimento feminista

O movimento feminista que está tendo cada vez mais visibilidade no mundo todo foi gestado ao longo dos séculos e é um conjunto de movimentos políticos, sociais, filosofias e ideologias que tem como objetivo comum: direitos equânimes.

O movimento ganhou força pelos ideais propostos pela Revolução Francesa, que tinha como lema a “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”. As mulheres queriam estar inseridas no turbilhão de mudanças sociais que estas revoluções traziam, principalmente para se sentirem mais cidadãs em uma sociedade historicamente regida pelo patriarquismo.

Mas essa era uma tarefa verdadeiramente difícil, como coloca Marlene Neves, professora de psicologia, “essas vozes discordantes eram poucas e pelo simples fato de tentarem transformar a situação das mulheres de seu tempo foram severamente castigadas”. Marlene ainda menciona o caso de Olympe Gouges “ela lutou na Revolução Francesa e escreveu a Declaração Universal dos Direitos das Mulheres, quando percebeu que a Declaração oferecida ao mundo pelos revolucionários franceses dizia respeito somente aos seres humanos do sexo masculino” comenta.

A luta pela emancipação das mulheres finalmente se transformou em um verdadeiro movimento no século XIX, principalmente na Inglaterra e Estados Unidos, mas com reflexos em quase todos os países ocidentais. Foram muitas as revindicações, como leis mais justas sobre custódia dos filhos e das filhas, divórcio, educação superior, controle das propriedades herdadas pelas mulheres casadas etc., mas na época o que alcançou maior notoriedade foi a luta pelo direito de votar e ser votada. Segundo Marlene “as mulheres que participaram do movimento foram e são até hoje denominadas de sufragistas”.

No Brasil, o feminismo também foi se estabelecendo lentamente e assim como em outros lugares, a luta pelo voto foi o sustentáculo inicial. Marlene menciona Nísia Floresta Brasileira Augusta, que escreveu o livro Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens e foi uma das pioneiras do movimento. A questão do direito ao voto para as mulheres tinha atualidade e foi discutida na Constituinte republicana de 1891, tendo como defensores Nilo Peçanha, Epitácio Pessoa e Hermes da Fonseca. “O projeto não foi aprovado, mas a Constituição não proibiu explicitamente o voto das mulheres. A não-inclusão da mulher no texto constitucional não foi um mero esquecimento. A mulher não foi acatada porque simplesmente não existia na cabeça dos constituintes” afirma Marlene.

Nos primeiros anos do século XX a movimento tomou formas mais consistentes. Foi Fundado o Partido Republicano por Leolinda Daltro (professora) e Gilka Machado (Poetisa); Elas promoveram em novembro de 1917 uma marcha pelas ruas do centro do Rio de Janeiro, com a participação de cerca de 90 mulheres. Em que pese a presença de apenas 90 mulheres, a existência dessa marcha em si é reveladora de uma militância que desafiava e ao mesmo tempo buscava dar publicidade a sua causa. “Deve-se ter presente que aquela era uma época em que a rua era interditada para as mulheres, que nela transitavam apenas por estrita necessidade e sempre acompanhadas”, explica a professora.

Nesse cenário, o fato de 90 mulheres terem saído em passeata tem um sentido muito especial, de enfrentamento à ordem estabelecida principalmente pois existiam muitas pessoas que eram anti-feminismo. O grande nome do sufragismo brasileiro foi Berta Lutz que em 1910 retornou de Paris e começou a organizar o embrião do que viria a ser a maior expressão do feminismo da época, a Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Era uma luta de mulheres cultas e das classes dominantes, estruturada a partir da luta pelo voto, com respaldo entre os membros da elite e que conseguia respeitabilidade até na conservadora classe política brasileira.

Dependendo do momento histórico o movimento teve diferentes causas e objetivos. No Brasil as primeiras feministas lutavam por muitas causas além do direito ao voto e depois ele criou novas vertentes, um dos exemplos é o feminismo negro. Marlene diz que “Francisca Senhorinha Motta Diniz foi possivelmente a primeira mulher a fundar um jornal no Brasil com o objetivo de divulgar a causa das mulheres”. Em 1873 Francisca fundou em Minas Gerais o “Sexo Feminino”, que teve dois anos de duração naquele estado. Transferiu-se para o Rio de Janeiro e reeditou o jornal, que durou até 1890, passando a chamar-se 15 de novembro do sexo feminino a partir da proclamação da República.

O ano de 1972 é marcado por dois eventos de naturezas completamente diversas que dizem muito da história e das contradições do feminismo no Brasil: o primeiro deles foi o congresso promovido pelo Conselho Nacional da Mulher, liderado pela advogada Romy Medeiros. O segundo foram as primeiras reuniões de grupos de mulheres em São Paulo e no Rio de Janeiro, de caráter quase privado, o que seria uma marca do novo feminismo no Brasil. O que marcou realmente o ano de 1975 na história do feminismo foi a decisão da ONU de defini-lo como o Ano Internacional da Mulher e o primeiro ano da década da mulher.

No processo de redemocratização do Brasil, as feministas tiveram um papel importante, por meio dos conselhos; da participação na Constituição de 1988; de introduzirem novos temas de luta na década de 1980, de levarem as teorias feministas para dentro das universidades, inaugurando o feminismo acadêmico. Nesse ponto, o movimento ficou cada vez mais difuso, na medida em que as mulheres passaram a lutar por diferentes aspectos da emancipação feminina, entrando, inclusive na política brasileira.

Para Marlene as lutas feministas produziram muitas mudanças positivas para a vida das mulheres em geral. O feminismo convocou as mulheres a viverem vidas plenas, libertas de cárceres seculares e com direito a uma cidadania de primeira classe. Nesse momento, novamente o feminismo tem que apresentar seus argumentos e atitudes não só para garantir direitos, mas para buscar alcançar o que ainda está amarrado e submetido na vida das mulheres. As redes sociais, como o facebook, são um instrumento de grande difusão de conhecimento e uma maneira fácil e rápida de expor a luta e unir mulheres de todo o país e até do mundo para a causa. Ela acrescenta que “agora, além das mulheres, muitos homens, aqueles que a igualdade não assusta, estão lado a lado com as mulheres para transformar o mundo como um lugar em que, não importando o gênero, os seres humanos possam viver com plenitude”.

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