A cilada de não ser quem é.

Em toda minha vida me senti culpada por ser quem eu sou. Vamos começar pelo fato de não ser simpática, assim, como aparência mesmo. Minha voz e minha expressão facial não são bem convidativas. Por anos a tentativa da minha família era de fazer parecer “mais feliz”, já que um oi para mim bastava e minha cara estava sempre “fechada”. Por anos ouvia piadinhas vindas de tia e avó sobre a minha personalidade. Havia reuniões de família para saber como lidar comigo. Por anos senti mal por ser quem eu sou.

Isso acaba se refletindo nos meus relacionamentos. Quando esta vida começou para mim, na adolescência, tentava disfarçar o meu verdadeiro eu para conseguir que algum menino me quisesse (afinal, eu era a menina legal e bonitinha, mas não vou ficar com você porque somos amigos e a amizade pode acabar). Ria demais de piadas sem graças, engolia o machismo que por um acaso me ferisse, usava maquiagem (odeio maquiagem, para mim batom tá bom), ouvia músicas que não gostava. Eu não era eu, afinal, ser eu era um convite às pessoas se afastarem de mim.

Não eram apenas relacionamentos amorosos não. Quantas vezes não disse a um amigo que aquilo me incomodava com medo da pessoa parar de falar comigo por estar ofendido? Ou chegar junto de alguém que sabia que não gostava de mim, me disfarçava e falava de assuntos de comum interesse para que esta mudasse magicamente a sua opinião. Deixava pessoas falarem coisas como “Beatriz é mega antipática” na minha frente. OU “Se Beatriz riu, é porque é engraçado”. Frases que me incomodam, apenas para nãos eram chata que reclama de tudo.

Não mudou na adolescência esta condição, na vida adulta se mantém, afinal, só estou sendo mais tolerante (mas as sobrancelhas arqueadas e a voz atravessada ainda estão comigo). Um namoro terminou por EU ser “muito negativa”, uma menina passou a falar mal de mim de graça porque EU sou muito grossa, uma amiga resolveu deixar de ser porque EU fiz alguma coisa que nem sei. Já falei sobre culpa e como é errado transferi algo que é problema seu no outro, e dizer que por causa de outra pessoa que você não quer mais ou faz isso é uma forma de culpar o outro por você. Enfim, prosseguimos.

Eu poderia por a mão na consciência de me martirizar como tantas vezes fiz. Chorar porque eu não consigo ser diferente do que sou. Cair na cilada de me transformar para tentar agradar e não estar confortável com aquilo, como fá fiz. Mas então eu sei que não sou a única com o mundo nas costas por não se encaixar naquilo que o dizem que é o correto. Seja aparência física, seja seu cabelo, seja sua personalidade, seja qualquer coisa. Quantas vezes vamos a clinica de estética fazer depilação TOTAL porque o seu namorado odeia pelos? Ou se privam de deliciosas batatas fritas porque “preciso emagrecer 1,5kg”? Ou dizer que gosta de sertanejo só para te chamarem para alguma coisa na sexta à noite, porque apenas fracassados ficam sexta sozinhos em casa?

Claro que se aceitar não é “sou assim foda-se” porque você pode ser um babaca e ser tão egoísta que realmente pode afastar as pessoas, precisa ter um equilíbrio. Mas se aceitar é entender quando algo é uma critica e precisa ser mudado para seu bem(Beatriz, o que você falou ontem foi agressivo e sem necessidade, fiquei meio magoada, queria que você soubesse) e aquilo que na verdade é você e parte de uma ideia ilusória do que acham que é você (Beatriz, você é grossa, não quero te ver mais, tchau). Aquele clichê, “as pessoas precisam gostar de você pelo que você é” é a verdade absoluta na vida que parece de fácil compreensão, mas é difícil demais incorporar verdadeiramente no cotidiano. Não é bem autoestima, é saber que você não é obrigada mudar algo que se sente bem para tentar agradar qualquer pessoa, porque, quer saber, isso só vai te deixar com nóias desnecessárias. Seja você mesmo. Isso sempre vai ser uma ofensa para alguém.