Não faz mais que a sua obrigação

Há coisas na internet que presto atenção de longe. Não me meto, mas fico lendo os textos, as discussões e assim fico atualizada para caso caia em alguma redação do Enem, saber desenvolver um texto em 30 linhas e ganhar uma boa nota no final. A discussão que ficou nas nossas mentes em questão é a do tal Rodrigo Hilbert.
Tudo começou (há um tempo atrás na ilha do soool) quando alguém então chegou a conclusão de que porque Rodrigo sabe cozinhar, serrar uma madeira, lixa a madeira, pintar, deixar secando, faz uma casa e faz de tudo e um pouco ele é o homão da porra. Homão da porra é o tal padrão masculino para homens que, vejam bem, não fazem mais além do que a sua obrigação de serem bons seres humanos. E o mais engraçado que nem cuidar dos filhos Rodrigo cuida, pelo menos é o que viram. E ai quero falar com vocês, mulheres, sobre isso. Porque este papo é com vocês.
A gente precisa parar de uma vez por todas de admirar caras que fazem o mínimo. Na vida, na nossa vida. Precisamos ser além do que somos para conseguir o mínimo de atenção. Numa reunião de trabalho, por exemplo, onde tem vários homens dificilmente consigo me fazer ouvida. Num restaurante onde vão dar a comanda com a conta fechada ao meu companheiro e não para mim, sendo que ganho muito mais que muitos homens, para eu falar sobre futebol preciso fazer uma faculdade de, enquanto qualquer homem já é considerado comentarista porque alguém disse que futebol é coisa de menino… Para sermos boas precisamos ser MUITO boas.
Quantas mulheres, em relacionamentos amorosos, vangloriam seu namorado porque ele não a trai, ou ele a respeita, ou quando ela não quis transar houve respeito. Querida, isso não é coisa boa e ele não vai para o céu por isso. Isso é algo que todo mundo precisa fazer. E ai que mora a opressão do nosso ser. Adoramos quem só faz o mínimo. Queremos casar com aquele que veste o discurso feminista, pensamos em conjunto “todo homem poderia ser assim” quando um cara é bacana conosco. Um homem que nos defende imediatamente colocamos num pedestal. Incentivamos, isso mesmo, criamos este ser na qual é além, como um anjo, quando é para ser equilibrado.
Muitos, senão a maioria, homens não gostaram de serem comparados ao Rodrigo, como não gostam quando comparamos nossos exs que trepavam melhor que eles, o nosso amigo que nos leva até o ponto para não ficarmos sozinhas a noite, aquele colega de trabalho que se lembrou do nosso aniversário. Nossos padrões, até isso gente, são mais alto do que o deles. Precisamos fazer cirurgia plástica para a nossa xoxota ficar rosada e com os grandes lábios perfeitos. Precisamos saber transar, mas não ser piranha, sermos mães perfeitas a ponto de não reclamar e não esperar muito dos pais. E eles só precisam ser educados, respeitosos e leais. Ponto, já ganham biscoitos por isso.
Não devemos esperar nada de ninguém, é bem verdade, e de homem infelizmente só espero o pior. Num final de uma novela turca na qual passava na Band e acabou esta semana, o ex marido da protagonista a estupra e a mata, por ciúmes. Isso é uma ficção, mas tão real que vemos a mesma história com diferentes nomes todo dia em capas de jornais ou no nosso feed de noticia. Morremos por causa do machismo. Nossa autoestima é minada por causa do machismo. Temos traumas por causa do machismo.
Lá do alto do meu muro, vendo toda a discussão entre defensores do Rodrigo e pessoas que não gostam dele, eu tenho uma opinião sobre: Eu não me importo. Eu sempre o achei mais ou menos, deste de quando ele era apenas um modelo que participou do clipe da Paris Hilton (lembra?). Ele nunca foi relevante e ainda não é. Assim como a maioria dos homens que vocês colocaram este selo. Ele não faz mais que a sua obrigação. Junta 50 Rodrigos Hilberts e não dá uma mulher maravilhosa. E o nosso foco tem que ser este, gente. É dar um prêmio para as minas que são fodas de verdade. É bater palma para mulher que sobrevive a cada minuto num dos países que mais nos matam no mundo. De caras como Rodrigo, não, não merecem um estalo da gente. Eles já tem muito só por serem o que são.
