Rio (não é) para todos.

Sempre morei na Tijuca, logo posso me considerar carioca da gema já que nunca me mudei deste bairro. No começo da minha vida adulta eu me considerava sortuda, um pouco, na verdade. Moro numa parte deste grande bairro onde estou perto de várias estações de metro (4 no total), algumas linhas de ônibus que me faziam ir para qualquer lugar em qualquer zona da cidade.

Porém o Rj nunca foi para mim. Se um dia tive vantagem de comodidade hoje não sei, já que a prefeitura tirou e encurtou boa parte das linhas aqui na cidade. Mas sei que muita gente nunca teve ônibus para a Zona Sul. E tem bairros que tem 1 linha de ônibus.

O preço da passagem (recentes 3,80) limita nossa saída para qualquer lugar. Para sair de casa você paga 8,00 e isso é muito para quem recebe 1000 reais de salário. Uma saída qualquer para um bar médio gastasse no mínimo 25 reais. Juntando com os 8, cada saída você elimina 33 reais apenas para se locomover e comer. Com este preço você pode comprar roupa, alguns kgs de arroz, areia para gato. Mas nas prateleiras do supermercado não se faz uma compra menor que 50 reais para no final comprar 4 itens. Sim, gente, compra do mês aqui no RJ passa dos 300 reais. Lembro-me da época que eram 100.

Falando em 100, certa vez meu pai me deu de presente de aniversário 100 reais para que eu gastasse com o que quisesse. Comprei 3 peças de roupas, 3 cds e ainda sobrou dinheiro para lanche. Hoje, às vezes, gasto 100 em 3 dias fazendo nada (indo para algum lugar, comendo porque tenho fome). Dinheiro se vai fácil. Este final de semana, por exemplo, vai ter 2 festas em lugares “””públicos”” e custam 20 a meia. Aqui cada evento custa 40 no mínimo. Lembro que já paguei 10 reais no Cine Lapa e isso faz 9 anos.

Há lugar de graça, claro. Posso dizer que devem ser umas 10 opções de programas assim no Rj. São os mesmos sempre. Tem algumas adições (como por exemplo, o museu do amanhã, na Praça Mauá), mas ao mesmo tempo em que adiciona, subtrai (o Parque Lage e a Casa França Brasil fecharão por não ter dinheiro). E aparentemente a praia já basta. Sim, os programas gratuitos no RJ se resumem a praia, alguns museus e alguns pontos verdes espalhados por ai. Poucos na Zona Norte.

Cultura no Rio é cara. Qualquer curso de artes(incluindo teatro, artes plásticas, cinema, música, etc) custa 100 reais no mínimo. As galerias são tão fechadas que a população não sabe onde ficam. Há poucos programas culturais de graça para o povo, poucas exposições e como falei acima, poucas opções. Apenas cavando bem conseguimos achar algo no final de semana que não gaste dinheiro e o mais importante, seja legal. Mas é concentrado na zona sul. E como falei, nem todo mundo tem a possibilidade de ir a Botafogo todo sábado.

EU poderia continuar este texto dizendo o quão este Rio não é para quem não tem carro, não tem dinheiro (2000 num apartamento de um quarto, porém perto de metro), não mora em algum lugar onde tem importância (leia-se zona sul, e só alguns bairros). O RJ nunca foi para mim, que conto moeda. O RJ nunca foi para a minha mãe, que está sem receber o salário de dezembro até agora por ser funcionária pública. O RJ não é para quem não consegue pagar plano de saúde e morre em fila de hospital. Não é para quem pega BRT, trem e linha 2 do metro. Não é para quem precisa acordar às 5 da manhã para chegar as 9 no serviço. Ao contrário do que muita gente acha, Rio não é para todos. É para bem pouca gente, na verdade.