Síndrome de Cristina

Quero deixar registrado que eu não gosto de Woody Allen.

Houve uma época da minha vida que queria um delicioso Brownie. Não qualquer um, mas no um delicioso estilo o do Luiz (marca famosa do doce aqui no RJ). A obcessão era tanta que durante um bom tempo nas minhas saídas, eu ia a cada lugar com cara de cafeteria para procurar o tal bolinho. Até achei, vejam bem, mas eram os comuns. Queria o de recheio, o de chocolate branco.

Então, depois de duas semanas procurando e desejando o tal brownie, fui até Laranjeiras (que é o lugar que sei que vende) e comprei o tal brownie do Luiz com chocolate branco de recheio. Na época nem estava mais tão afim do tal doce, mas comprei para relembrar meu recente passado de desejo. Comprei, comi e…….. Bem, poderia ter ficado com meus 5 reais e não ter gastado este dinheiro.

Isso, não era nada demais. Era mais doce do que lembrava, nem estava com fome e pior, nem tava com tanta vontade. Eu amo este brownie, mas não era o momento para come-lo. Logo imediatamente outra vontade apareceu: a de comer Bono de doce de leite, que nem é tão legal, é doce e lá pelo sétimo biscoito você já tá de saco cheio.

Este exemplo de comida se aplica a namoros, trabalhos, textos, amigos. Queria tanto namorar, mas não quero um cara pegajoso, mas também não quero um cara ausente, mas se aparecer este cara dentro deste equilíbrio ele vai ser muito chato e ai não tem como. Quero um trabalho, mas tem que pagar bem, mas quero me esforçar pouco, mas se aparecer este trabalho perfeito ele vai durar pouco. Etc,etc,etc,etc.

Então, depois de muito pensar sobre a minha condição de nunca estar satisfeita com nada, de sempre achar um defeito em algo que estou fazendo, podendo estar feliz “mas poderia estar melhor” me vi na personagem Cristina de Vicky Cristina Barcelona.

No filme Cristina, interpretada pela Scarlett Johanson, vai com sua amiga para Barcelona porque parece uma boa ideia. Na sua vida a coisa mais importante que fez foi um filme de amor que dura 12 minutos. Vivendo com esta tal liberdade de não se prender a nada, acaba encontrando um desconhecido, que a convida (e sua amiga) para viajar de helicóptero e aceita tal proposta, não se importando se poderia ser um cara perigoso, alias. Se envolve romanticamente com ele e posteriormente com sua ex mulher, Maria Elena,interpretada por Penelope Cruz, depois de voltar um turbulento final de relacionamento. O romance estava perfeito, um poliamor incrível até que ela entende que não é aquilo que quer. Termina o relacionamento dizendo que não era isso que ela queria, no momento.

Maria Elena a resume: ela tem insatisfação crônica. Ao longo de todo o filme o narrador descreve Cristina como alguém que não sabe o que quer mas sabe muito bem o que NÃO quer. A identificação é direta: Não sei se quero brownie de chocolate branco, ou de nutella, ou Bono de doce de leite ou um namorado ou um one night stand. Só sei que não quero cookie do Subway, nem daquela loja famosa de Copacabana nem Fulano nem Sicrano. De certa forma, a decisão está feita. Ser insatisfeita com tudo é uma opção. Só não sei se é a correta. Até porque no final do filme Cristina mantém sabendo muito bem o que não queria.