Porque Sintonia da Netflix é um marco na televisão brasileira

Um dia, a série Sintonia da Netflix, será reconhecida como um marco para a história da dramaturgia e da cultura no Brasil.
Porque nela, a favela, o tráfico, o racismo, a violência, o desamparo social, o preconceito com a fala, a cultura e a música periférica, são retratados de maneira crua e sem medo de fazer concessões a uma pseudo qualidade narrativa e visual que estetize seus personagens, sua narrativa e seu lugar.
Não é surpresa que a série traga tal carga de veracidade. Ela é fruto da cabeça do muito jovem Konrad Dantas, o Kondzilla. Jovem, negro, periférico e bem-sucedido empresário do mundo musical que transformou a produção e divulgação de clipes de funk em um império cultural original e rentável.
Viver a experiência da “quebrada” mais barra pesada de São Paulo, e dar forma e expressão aos meninos que sonham tornar-se estrelas da música, emprestou esse caráter original e verídico à série como nenhuma outra antes na televisão brasileira.
Para se exemplificar a ousadia de Konrad, veja como ele trata dois grandes temas na série, que são abordados com originalidade e muita coragem.
Um é a linguagem, a forma como os personagens se expressam. Para quem como eu é da periferia de São Paulo, há um grande prazer em ouvir o ‘erre retroflexo’ do paulistano periférico. É o mesmo erre do caipira interiorano com que Mano Brown canta suas canções. E há as gírias. Reais, frescas, saídas de todas as esquinas e presídios de São Paulo para explodir nos diálogos mais tensos da série.
A voz da massa de paulistanos em volta da cidade está viva e pulsante na série.
Outro tema é a religião. Há uma ambiguidade muito corajosa ao narrar a experiência religiosa da personagem Rita, que encontra êxtase em um culto na igreja. Em dado momento, não sabemos o que a fascina, se a catarse espiritual ou a promessa de redenção financeira e social que a vida como pastora em uma igreja evangélica pode lhe proporcionar.
A lição de Sintonia é que representatividade na cultura do áudio visual brasileiro é um caminho sem volta. O brasileiro não deseja apenas se ver na tela. Ele também deseja contar a sua própria história, em seus termos e com seus erros e acertos.
E Kondzilla prova também que a experiência do brasileiro nas periferias e favelas pode, sim, produzir uma dramaturgia complexa e inovadora. E pode até ousar a nos oferecer a percepção de uma nova identidade nacional, exilada nas periferias de São Paulo e do resto do Brasil urbano afora.
O futuro desse Brasil moderno está na favela e Kondzilla sabe disso há algum tempo.
