A Beleza das Máquinas

A Estética de um Cientificismo

Se você é um gestor exemplar que acredita que a administração se legitimou como profissão por ser um conjunto de métodos e ferramentas que aumentam eficácia e eficiência; ou, se você é um engenheiro fascinado pelos mega-poderes de Taylor e Ford e pensa que eles revolucionaram o mundo porque seu modo de produção aumentou incrivelmente a produtividade e reduziu custos; ou, ainda, se você é um acadêmico crítico que construiu uma obra e uma vida dedicadas a mostrar que o taylorismo-fordismo levaram à degradação do trabalho no século XX, você pode estranhar, mas a industrialização se espalhou pelo mundo principalmente graças à beleza das máquinas — ou, melhor dizendo, ao senso de beleza tornado mecânico. Pode parecer estranho pensar que a administração tenha se expandido e se institucionalizado não graças ao aumento da produtividade de Taylor, nem graças à redução de desperdícios de Ford, e muito menos graças à “cientificidade” que ela alegava, mas sim principalmente graças à estética das máquinas, incorporada e difundida pelos arquitetos e artistas da época, patrocinados pelo governo. É isso o que mostra uma interessante análise[i] da arquitetura do século passado.

Chaplin, um equívoco

Conforme mostra o estudo de Guillén, é exatamente esse raciocínio que se desmonta quando se analisa a arquitetura do século passado. Isso porque, ao aplicar a metáfora da máquina ao design de casas, prédios públicos, escolas, fábricas e objetos cotidianos, o modernismo europeu ampliou o impacto da administração científica, estendendo-a a outros domínios da vida — não por sua eficácia, mas por sua estética. Se a administração científica tentou fazer com que o homem trabalhasse como uma máquina, o modernismo europeu insistiu no potencial estético da eficiência, precisão, simplicidade, regularidade e funcionalidade, produzindo objetos úteis e belos, e desenhando prédios e artefatos que se pareciam e seriam usados como máquinas.

Como movimento artístico, o modernismo europeu era antitradicional e antirromântico, e incorporou no processo de criação artística os procedimentos da administração científica, desenvolvendo um “senso de beleza Taylorizado”. Reinterpretando a administração científica em termos estéticos, a partir da ideia da padronização como virtude estética, os arquitetos europeus modificaram a formação teórica e prática, as fontes de inspiração, o ideal de desenho e até mesmo o processo criativo.

Institutos de Arte passaram a ter engenheiros como os principais professores e o “artista-engenheiro” passou a ser o ideal de aluno. Na França, Le Corbusier, um dos mais famosos arquitetos da época, desenvolveu e popularizou o conceito de “máquina para viver” como substituto da ideia de “casa”, e a máquina foi elevada ao status de símbolo e musa. A fábrica se tornou “o verdadeiro lar da educação” e enquanto novos materiais de construção eram desenvolvidos, possibilitando novas formas de prédios, a identidade do arquiteto também foi reconstruída. Temas rurais, bucólicos e monárquicos foram eliminados do imaginário de quem projetava as cidades e desenhava os objetos de uso cotidiano.

A técnica de “tempos e movimentos” saiu das fábricas de carros e ganhou os canteiros e os teatros. O fracionamento do trabalho em pequenas tarefas padronizadas foi incorporado ao processo criativo de projetistas para criar a famosa “unidade habitacional de existência mínima” — o menor apartamento possível em que uma família pudesse habitar. Concepção e execução foram completamente separadas, e o trabalho do arquiteto foi decomposto/fracionado para remover a intuição e os critérios individuais. Enquanto isso, teóricos teatrais se ocuparam de eliminar movimentos, gestos e expressões ineficientes ou redundantes para reduzir o tempo de uma apresentação de 4 horas para 1 hora. Também os artistas da moda tiveram sua imaginação capturada pela hierarquia, unidade de comando, simplificação e padronização. Fazer o teatro, as casas e as roupas como Ford fazia carros passou a dar o tom da beleza, até que o senso estético incorporasse o ideário de jargões como: “milhões de produtores farão objetos padronizados para a vida cotidiana”; “declaramos que o esplendor do mundo se tornou enriquecido por uma nova beleza — a beleza da velocidade”; “a casa é uma máquina para se viver… uma cadeira é uma máquina para se sentar”.

E isso não era uma consequência da disseminação da administração científica ou da sua eficiência comprovada. O estudo de Guillén mostra que esse espírito se expandiu primeiro principalmente nos países em que a industrialização era mais tardia, e demorou a se expandir em países com industrialização avançada. Em países com maior produção de carros, viam-se reações violentas de não aceitação àquele modo de trabalho e de vida; e em países com industrialização tardia, esse espírito modernista florescia, como uma tentativa de fomentar a industrialização. Comumente era o atraso econômico o que fazia com que arquitetos tentassem modernizar seu país, com patrocínio do governo. Em alguns casos, como o da Espanha, arquitetos como Antoni Gaudí reagiram e tentaram reavivar a criatividade e a nostalgia, e nunca substituíram o ofício pelas técnicas do modo de produção em massa. Considerados monumentos, seus prédios ainda hoje exibem formas, cores e materiais que em muito são responsáveis pelo encanto de Barcelona.

Polanski, um observador

A ideologia e os métodos associados ao Taylorismo e ao Fordismo capturaram a imaginação de arquitetos e outros artistas na França, Alemanha, Itália e União Soviética, que estavam ansiosos para construir casas, prédios públicos, fábricas, objetos e bens de consumo duráveis combinando a beleza com a técnica, economia e eficiência social. Dizia-se que caos, desordem, desperdício, vadiagem de trabalhadores, acompanhados por arbitrariedades da gestão, ganância e falta de controle prejudicavam seriamente a produção e o bem-estar. Logo, pregava-se que era preciso uma “revolução mental” que eliminasse modos de pensar tradicionais. Em grande medida, foi assim que a estética incorporou a máquina; e a própria vida, como um (quase) todo, incorporou a hierarquia, a unidade de comando, a simplificação e a padronização.

Guillén fornece muitos outros detalhes desse processo, e um dos pontos mais importantes que ele discute é que o rearranjo de um campo afeta os atores, assim como as práticas. Em resumo, isso quer dizer que a industrialização, a mecanização e a taylorização encabeçadas pelo modernismo europeu vieram juntas com a formulação de uma estética modernista cujos impactos transcenderam a organização e a atividade de construção. O conteúdo da administração científica subjacente à arquitetura modernista exerceu um efeito largamente difundido pela Europa, Estados Unidos e Américas, duradouro e profundo sobre a vida das pessoas. A administração científica discretamente invadiu casas, postos de trabalho e, o mais importante, a cultura — ela evocou uma nova ordem estética.

Materializado e incrustado em toda a vida na cidade, das calçadas das praças aos corredores e banheiros dos apartamentos, o ideário do “artista-engenheiro” que trabalhava em busca da “mais íntima união possível entre arte e indústria”, exercia seus efeitos mais intensos nas mentes e nos sentimentos das pessoas. Compositores faziam músicas mecânicas e novelistas escreviam livros em que o carro era o protagonista. O modo de vida, e não apenas o de produção, incorporou o “one best way”. Laboratórios psicotécnicos foram criados para investigar a quantidade de energia requerida para perceber diferentes formas arquitetônicas e medir as várias dimensões da capacidade visual humana. Os resultados afirmavam que formas mais regulares e simples eram mais fáceis de serem percebidas e, por isso, produziam mais satisfação.

E se Guillén não chegou a se aprofundar nos efeitos dessa nova ordem estética sobre as pessoas, Polanski o fez, de modo brilhante, em sua “Trilogia dos Apartamentos”. Nos filmes “Repulsa ao Sexo” (1965), “O Bebê de Rosemary” (1968) e “O Inquilino” (1976), ele retratou o terror psicológico das pessoas deixando de morar em uma “casa” e passando a morar em uma “máquina para viver”. Hierarquia, unidade de comando, simplificação e padronização saem das paredes e cômodos e se incrustam nas mentes e nas relações entre pessoas. Regularidade, continuidade, velocidade e simetria impregnaram o ser. O resultado? Repulsa, medos delirantes e despersonalização, culminando em assassinato, loucura e suicídio.

Take Away — Ressignificar a Beleza

Enquanto toda a conversa à la Zygmunt Bauman, que reduz a vida ao sociologismo, tem levado muita gente a pensar que rompemos bruscamente com a ordem do século passado e adentramos uma “nova época”, em que tudo é líquido e flexível, a fissura das pessoas por gadgets deveria ser pelo menos indício de que a beleza das máquinas ainda paira em nossos gostos. E se ela impregnou nossas vidas de hierarquia, unidade de comando, simplificação e padronização, por que deveríamos pensar que estamos livres disso e adentramos a era da flexibilização (liquidez), da criatividade e do trabalho colaborativo, se os atuais arquitetos do futuro desenham apartamentos cada vez mais compactos, e se crianças se encantam mais com touch screens do que a forma das nuvens?

[i]Guillén, M. F. (1997). Scientific management’s lost aesthetic: Architecture, organization, and the Taylorized beauty of the mechanical. Administrative Science Quarterly, 682–715.