crises de meia-noite e meia: um desabafo


No meio de uma crise dos 27 anos — mesmo eu não tendo 27 anos — acordei às 3 da manhã de um sonho do qual já nem me lembro sobre o que era e não consegui mais dormir diante do pensamento de que era a terceira vez na semana em que eu não conseguiria dormir mais do que 8 horas. Rapidamente peguei o celular do criado mudo e — como sempre — pesquisei no google se isso fazia mal e –como sempre — o dito cujo só melhorou as coisas ao alegar que dormir mal aumenta gravemente os riscos de câncer de _______ (insira aqui o nome de algum órgão do qual nunca ouvi falar).

O pior dessa crise dos 27 adiantada é não só nadar num mar de incertezas sem saber que diabos você tá fazendo da própria vida, é em uma hora se jogar no sofá chorando porque não se sabe por onde começar (e as respostas do google nunca são muito agradáveis) e na outra querer fazer tudo ao mesmo tempo, sem poder fazer nada (por motivos de dinheiro, ou a falta dele, ou tempo, ou a falta dele), e ficar extremamente frustrada por isso.

Porque não há nada mais frustrante que uma crise dessas. Hoje por exemplo estou escrevendo este texto às 00:39 após ter tentado terminar um livro de 250 e poucas páginas, porém a cada cinco linhas me distraía pensando que já é minha terceira semana de férias e ainda não passei da página 100. E olha que super prometi a mim mesma que leria cinco livros esse mês. Larguei o livro e fui ler Clarice Lispector. Ao menos ela entende de crise.

E é esse o melhor resumo da situação: é não ter dinheiro pra nada, é dizer não ter tempo pra nada — quando na verdade é não conseguir administrar o tempo pra nada (o que também na essência é não conseguir administrar nada, muito menos o tempo), é não conseguir terminar um mísero filme porque no meio dele você já não está acompanhando a história porque ficou uns 15 minutos muito relevantes pensando que não deveria estar vendo um filme e sim dando um jeito na própria vida, é não conseguir acompanhar série nenhuma nem terminar livro nenhum porque toda vez que você tenta dá merda; é tentar qualquer coisa e dar merda.

É começar um livro às 23:00 porque às 22:00 você se ligou que não fez nada de produtivo naquele dia e passar uma hora pensando no que fazer ou reclamando sobre no twitter só pra depois continuar pensando no assunto enquanto lê o livro e ficar encarando o mesmo parágrafo por uma hora — só pra depois largar a merda do livro e trocar por um Clarice. É ter uma ideia louca às 4 da manhã (logo depois de deitar na cama um ainda mais desnorteada pelas palavras de um livro confuso) e começar a planejar tudo o que vai fazer no dia seguinte: acordar cedo, anotar as coisas que tem que fazer, tomar um café super nutritivo pra ter energia pra aquele dia agitadíssimo que você vai ter.

Só que, amigo, deixa eu te falar: já são cinco da manhã. O dia já começou. Você então acorda 12:30 já frustrado porque perdeu sua manhã produtiva e muito obviamente esqueceu as coisas que ia listar enquanto dormia. Assim, você fica frustrado pelo dia produtivo que não vai ter. Você volta para o sofá e vai dar uma choradinha. E tudo de novo…


Le raconteur é um projeto inspirado na Loja de Histórias, de Pedro Fonseca. Acredito que toda fotografia tem uma história, então procuro fotografias e imagino a história que há por trás delas. Hoje, porém, decidi publicar uma história minha, e só depois arrumar uma foto que combinasse com ela.

Se gostou do texto e quer que eu publique mais histórias assim, dê um ♡, agradeço!

Se quiser doar uma foto de sua autoria, também agradeço! Só me procurar no twitter ou me mandar um email (rebeca-ribeiro@outlook.com). As fotos que uso nesse projeto não são minhas e os direitos são de seus respectivos fotógrafos — exceto por hoje, em que a foto é minha, sim. Todos os direitos são da autora aqui.

-becky.

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