não conte seus passos.


O sol nasce. Os animais e as plantas acordam. Os raios de sol chegam devagar a cada cantinho. O dia começa. Hoje é domingo. Os carros e as pessoas circulam. O despertador toca. Ela acorda. São 09:11. Ela tem 21 anos, 137.678 fios de cabelo, e um par de olhos azuis ainda fechados enquanto tenta, ainda enrolada nos lençóis, levantar da cama e desligar o despertador.

Ela conta os dez passos que a levam até a cozinha e dá três mordidas na maçã enquanto observa pela janela o trânsito e as pessoas circulando, até concluir que a maçã não tinha gosto nenhum, provavelmente porque ela ainda estava gripada pelo banho de chuva de anteontem, pensou. Ela tem 4 gatos que no momento dormem todos encima do sofá, deixando um mínimo de espaço pra que ela possa sentar e comer os cereais com leite que trocou pela fruta sem sabor.

Ela liga a TV e troca de canal 43 vezes. Não há nada de interessante. Levanta-se, com a tigela na mão e um certo cuidado para não acordar os gatos. Dá três passos pra pegar uma cadeira e mais cinco passos pra coloca-la ao lado da janela e observar outra vez as pessoas na rua, enquanto termina o cereal.

Um homem de bem uns 80 anos anda devagarinho pela faixa de pedestre. Uma moça numa bis vermelha espera pacientemente enquanto ele dá 17 passos extremamente lentos até o outro lado da rua pra comprar um jornal. Um cara com um violão nas costas espera pelo ônibus das 10:15.

Então ela vê uma garota com o mesmo corte de cabelo que ela e aparentemente a mesma idade. A garota anda do lado oposto da rua e usa um headphone amarelo, combinando com suas sapatilhas. Ela então tenta contar os passos da garota mas não consegue, pois ela dança e salta enquanto atravessa a rua, sorrindo.

Assim ela se dá conta de que fazia tempo que ela mesma não sorria sozinha, nem dançava em público. Deixa a tigela no chão. Olha para o céu. Respira fundo, dessa vez realmente fundo, como sua professora de ioga sempre tentou ensiná-la a fazer.

Ela levanta e não conta seus passos. Promete a si mesma que nunca mais vai contar. Liga seu notebook, encima da mesa. Coloca sua música favorita. Ela dança sozinha e sorri sozinha.

Ela acorda todos os seus quatro gatos. Vê o telefone ao lado do sofá e liga pra sua melhor amiga pra dizer que a adora. A amiga não atende, mas ela deixa uma mensagem dizendo que a adora mesmo assim.

Ela desce as escadas (sem contar, mais uma vez, em quantas escadas ela pisa). Coloca seus headphones — que combinavam com suas unhas azuis — e atravessa a rua dando uma pirueta, esperando que outra garota a observe de seu apartamento e também sorria.


Le raconteur é um projeto inspirado na Loja de Histórias, de Pedro Fonseca. Acredito que toda fotografia tem uma história, então procuro fotografias e imagino a história que há por trás delas.

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-becky.

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