A Rússia e eu — ou por que amar tanto a cultura desse país.

Possivelmente devo ser conhecida como a cearense mais russa e deveria ter escrito isso antes de já ter gasto saliva e mais saliva ao explicar para alguém o que tanto vejo e admiro nesse país. Mas, nunca é tarde e, aproveitando uma semana histórica na qual vocês irão ter que me aguentar compartilhar o pouco que sei sobre este rico país, irei contar da onde surgiu tudo isso. Um adendo: o texto contém palavreado tipicamente cearês, porém sou uma pessoa boa e no final tem glossário para os não familiarizados neste rico dialeto.

O Ano de 2002 e O Idiota.

A pessoa aqui era uma típica estudante do ensino médio que se preparava para prestar o vestibular de medicina. As únicas coisas que eu lia nesta época eram basicamente o que me levariam a obter a tão sonhada vaga. Qualquer coisa fora disso era um mero acaso de leitura provocado pelo tempo entre aulas. Sempre li muito — as literaturas portuguesa e brasileira especialmente, mas não conhecia a literatura russa.

Isso mudou numa das aulas da olimpíada de biologia cujo professor até hoje não esqueço. Chamaremos ele de Oclinhos. Seu Oclinhos era pontual e conhecido por ser culto. Todos o admiravam bastante (na verdade era um misto de admiração e medo) pois ele sempre incluía nas aulas muitos dados de novas pesquisas e citações de suas diversas leituras. Lembro que todos sempre ficavam boquiabertos do quão sábio Seu Oclinhos mostrava ser.

Pois bem, eis que ele me chega na sala carregando um livro cujo título achei bem jocoso e inusitado: O Idiota. Primeira reação da pessoa foi: “beisso, que djabo de livro réi é esse? Título réi doido, mah!” Lá se vai a inocente se aventurar a perguntar de qual assunto tratava o tal livro. Seu Oclinhos me julgou claramente e perguntou: “Você não conhece Dostoievski?”. Antes que meu cérebro processasse tal nome na tentativa de pronunciá-lo, Seu Oclinhos balbuciou que “minha geração estava realmente perdida”.

Liseira e Martin Claret: uma relação de dependência.

Para os moradores da periferia (comunidade parangabense rules!) de Fortaleza, o centro sempre foi o ponto de convergência das necessidades. Tudo o que você queria estava lá — ou pelo menos quase tudo.

Numa dessas minhas típicas andanças por lá, paro num camelô que vende livros na calçada. Ele os dispunha num grande plástico preto em uma ordem aleatória. Paro uns minutos para dar uma olhadinha e… avisto o tal do “Dosto alguma coisa vki”(então, ainda não sabia pronunciar). Começa a negociação:

- Ei seu Zé, quanto é esse aqui, hein?

- 8 conto.

- Vish mah! Faz por 5 vá lá? Sacomé, estudante é liso.

- Mas aí não ganho nada, cumade!

- Manxo, se tu não me vender por 5 é que tu não rái ganhar mesmo, retruquei orgulhosa.

Saí de lá carregando numa sacola de plástico com pequenos furos o livro Crime e Castigo, já sabendo que a merenda coxinha com coca na Dona Zuzu não ia rolar mais tarde, pois gastei o que tinha (fora a passagem, claro!). De repente uma aura intelectual pairou sobre mim e me fez sentir um pouco de orgulho em ler o que seu Oclinhos lia. Parecia que automaticamente eu virara referência literária e ninguém poderia me tirar isso. Porém, mal sabia que estava levando uma versão traduzida da tradução de outra tradução. Do russo se passou pro francês que passou para o Português. Mas quem disse que eu ligava? Fui ler e digo: foi paixão à primeira lida.

Simplesmente não conseguia largar o livro. Aquele suspense me deixou vidrada e viciada no autor. Para mim a literatura russa se resumia à genialidade da escrita do Fiodor. Nunca havia lido alguém que pudesse descrever tão bem o sentimento de medo e perseguição como ele fizera. Sabia alguns trechos de cor e o livro já era meio esfulepado de tanto ser manipulado.

Depois dele vieram outros clássicos do escritor, como o famoso O Idiota, Recordação da Casa dos Mortos, Noites Brancas, O Jogador, Notas de Subsolo, Irmãos Karamazov… todos da tal Martin Claret. A pessoa aqui não dispunha de recursos para comprar da editora que descobrira mais tarde, a 34, afinal, estudante é um ser naturalmente liso.

Tolstói, escolhi te amar!

Se Dostoiévski foi quem me fez apaixonar pela literatura russa, Tolstói certamente foi o responsável por me fazer amá-la! Descobrí-lo foi, de fato, adentrar numa bolha da qual não mais saí.

Enquanto a escrita de Fiodor explorava os meandros psicológicos de seus personagens, Tolstói mostrava o cotidiano deles, seus costumes e realidades. Da aristocracia russa aos mujiques, ele conseguia transmitir os valores de uma sociedade tipicamente russa, como valorização da família e de suas raízes, que me prenderam e geraram instantaneamente um laço de identificação.

Fora ele também que me abriu portas para outros escritores tais como Pushkin, Gogol, Tchekhov, Turgueniev, Goncharov, dentre outros que também tinham em comum retratar o cotidiano de um povo que desde sempre foi assolado por tantos acontecimentos dolorosos e que ainda assim conseguiam viver da melhor forma possível.

O Nordeste é o meu país.

A gente só se dá conta do que é ser nordestino quando se depara com uma cultura diferente da nossa. Morei um tempo fora do Nordeste e digo que foi ai que percebi o real significado do que era ter nascido aqui. A diferença mais nítida se dá no sotaque e língua. Vejam bem, apesar de morarmos no Brasil, aqui falamos um dialeto que só é compreendido por quem possui raízes fincadas nessa região.

Além disso as relações entre as pessoas são bem distintas. Aqui respeitamos os mais velhos, mesmo eles estando errados; pedimos a benção aos pais antes de sair; gostamos de sentar nas calçadas e pastorar os pivetes brincando na rua no fim de tarde; puxamos a árvore genealógica do caboco pelo sobrenome e descobrimos parentescos na fila do banco; podemos ser conhecidos pela alcunha de Fí da (insira aqui o nome da sua mãe); curtimos muito uma rede na varanda; começamos a namorar na pracinha da Igreja; conhecemos todos do bairro pelo nome; frescamos com todo mundo, inclusive com nós mesmos e temos uma vaia tradicional de reconhecimento (Ieeeeeiiii) — estas duas últimas características típicas do cearense.

Poderia colocar mais coisas aqui e deixar este texto mais longo do que já está, mas estas são só algumas das características culturais de quem nasce no Nordeste. Há um sentimento mútuo de pertencimento a uma cultura universalmente difundida pelas bandas de cá. Com exceção da Bahia (só querem ser as pregas e se sentirem do Sudeste, escarro mesmo!), ser nordestino tem um significado que todos os estados que aqui pertencem sabem o que é.

Tá e o que isso tem a ver com a Rússia? Tem só tudo. Um pouco mais acima falei que Tolstói me mostrou um lado russo que gerou uma identificação imediata. Essa conexão se deu exatamente por compartilharmos valores semelhantes no que diz respeito às nossas famílias e tradições.

A internet costuma dizer que a Rússia brasileira fica no Paraná, eu digo que fica no Nordeste. Incrível como somos semelhantes! A tão falada “Alma Russa”, retratada por Gogol, pode muito bem ser equiparada à “Alma Nordestina” presente nas páginas do Suassuna.

E o que falar das dificuldades impostas pela vida? Tanto o nordestino quanto o russo são sobreviventes e tentam viver da melhor forma possível, mesmo que o governo não deixe, mesmo que as condições naturais não permitam! Alguns acham que isso é uma forma de conformismo diante da vida, quando na verdade reinventamos constantemente nossa realidade. Com isso, ler os contos e romances russos muitas vezes foi sinônimo de ver um universo comum retratado, mesmo que ele estivesse quilômetros distante daqui.

Por fim, a bolha.

A vida é muito curta, então devemos escolher bem em que depositar nosso tempo. No caso da leitura, dedico-me à literatura e cultura russa por simplesmente ser apaixonada e achar que se é pra ler, que seja algo que me dê prazer.

A porta de entrada para a Rússia foi sua literatura, mas hoje já tem outras portas e janelas que me fascinam tanto quanto. A língua russa e sua sonoridade, com uma cursiva que faz meu cérebro travar (mas ok, amo desafios!); a produção audiovisual, a arte contemporânea; a música clássica; a crítica literária; a história de lutas e revoluções; o desafio da geração pós URSS e tantos outros assuntos que o melhor mesmo é abordá-los separadamente noutra oportunidade.

Por fim, acho que me fiz clara nos motivos que me levam a permanecer nessa bolha. Creio que finalmente facilitei minha vida ao responder de uma vez por todas, o porquê da Rússia.

пока пока! :)


Cearês Descomplicado

  • Beisso/Djabeisso: interjeição usada para demonstrar da surpresa ao descontentamento.
  • Caboco: pessoa do gênero masculino.
  • Conto: nome da moeda.
  • Cumade: pessoa do gênero feminino.
  • Escarrar: entregar, delatar.
  • Esfulepado: desgastado.
  • Fí: filho.
  • Frescar: brincar, trollar.
  • Liso/Liseira: não ter dinheiro.
  • Mah/Manxo/Macho/Man: o equivalente a “hey, cara”.
  • Merenda: lanche.
  • Pastorar: observar à distância.
  • Pivete: criança.
  • Rái: vai, o V tem som de R no Ceará.
  • Réi: expressão que denota desprezo.
  • Seu Zé: nome dado a alguém que você não conhece, mas quer falar.
  • Ser as pregas: se achar, se superestimar.