Unseen e as mulheres de Aleppo

Foto: Issa Touma

Unseen é o maior evento de fotografia dos Países Baixos e um dos maiores da Europa. Ao longo de dez dias, Amsterdã é tomada por exposições, diálogos, feira e prêmios aos novos talentos da fotografia.

Além do coração da feira— onde estão centralizadas as palestras, a venda de livros e as exposições de galeristas — , cerca de 40 espaços pela cidade participam da programação geral. O evento compreende de trabalhos expostos em tapumes pelas ruas até a exibição de uma coleção particular recentemente doada ao museu de arte contemporânea Stedelijk (onde também estava acontecendo uma exposição dos melhores designs de livros de 2014).

Foto: Camila Domingues

A cidade respira fotografia. É possível percorrer grande parte dela em busca das galerias e museus participantes. E ainda que o Unseen tenha boa parte de sua programação voltada à nova fotografia, os principais museus de fotografia de Amsterdã investiram no unseen de grandes fotógrafos. O Huis Marseille apresentou a retrospectiva Time Flies, do respeitado fotógrafo finlandês Esko Männikkö. O Foam exibiu dezenas de contatos, além das respectivas histórias de fotos icônicas da Magnum, que vão de Henri Cartier-Bresson a Alec Soth. Bible and Dildo, vencedor do Foam Paul Huf Award 2015, de Momo Okabe, mereceu o andar de baixo do museu, atrás de cortinas pretas e um aviso sobre o teor explícito nas imagens.

Exposição de contatos da Magnum. Em algumas das cópias fotográficas expostas era possível ver as anotações e carimbos no verso. Foto: Camila Domingues

O festival honra o nome e a fama que carrega. As exposições são muito bem produzidas, com projetos expográficos que exaltam os trabalhos e conferem individualidade a cada um deles. Ainda que todos sejam parte de uma programação maior, cada exposição é uma experiência singular.


Eem meio a grandes nomes da fotografia e de talentos regionais — diversos artistas participantes são holandeses ou de países nórdicos — a exposição que mais surpreendeu não foi de um europeu. Localizada em uma pequena galeria que serviu de esconderijo para artistas durante a II Guerra Mundial, Woman We Have Not Lost Yet, do fotógrafo sírio Issa Touma, é mais do que arte ou crítica social; é uma forma de sobrevivência.

Dima | 21 anos | estudante | muçulmana sunita. Foto: Issa Touma

Em abril de 2015, durante uma semana de fortes ataques de radicais islâmicos em Aleppo, diversos jovens refugiaram-se na galeria Le Pont. Coordenado por Touma, o espaço cultural abriga atividades artísticas e é um ponto de referência para artistas locais. Acuadas, as mulheres que lá estavam compartilharam seus medos e esperanças sobre o futuro. Touma as fotografou.

Os retratos dessas mulheres, tão diferentes entre si, são um apelo por ajuda. Suas distâncias culturais e religiosas são indiferentes, pois no final das contas elas são todas vítimas da guerra. São muçulmanas, cristãs, armênias ortodoxas, yazidi com projetos de vida que provavelmente jamais concretizarão. Não da forma como imaginavam.

O projeto de Touma nos joga diante da violência da guerra, cotidianamente denunciada através de números, de mortes. A violência não está explícita como nas fotos que aparecem nos jornais, da cidade síria devastada ou do desespero dos refugiados, mas ela está declarada nesses retratos nos quais não podemos ver os olhos de quem encaramos.

Exposição na fundação cultural Castrum Peregrini, em Amsterdã. Foto: Camila Domingues

Ao entrar na exposição, na fundação cultural Castrum Peregrini, em Amsterdã, nos deparamos com 15 retratos. A mostra está organizada de forma com que os espectadores possam caminhar por entre essas mulheres, em fotografias impressas quase em tamanho real. No verso das fotografias está o relato de cada uma delas.

"Desde que a guerra começou, eu disse adeus a tantas pessoas. Eu parei de encontrá-las para não ter que dizer adeus mais. Perdi o sentido de estar viva. Vou ficar em Aleppo para terminar meus estudos, e todas as noites eu conto as bombas explodindo em volta da minha casa até eu adormecer." (Dima, 21 anos)
"Eu gosto do meu trabalho e meu trabalho é mais seguro do que a minha casa no bairro cristão. Mas os meus pais querem que eu desista do meu trabalho. Nós discutimos muito sobre isso. Ficar juntos lhes dá uma sensação de segurança." (Nour, 21 anos)
"Após 13 anos de autonomia econômica, todos os dias eu tenho pavor do que vai ser tirado de mim se Aleppo cai nas mãos de extremistas. Eu estaria presa em meu apartamento, incapaz de sair a menos que acompanhada por um membro masculino da família. Eu tenho ataques de pânico quando penso em perder minha vida, o meu trabalho, só porque eu sou uma mulher." (Hiba, 31 anos)

Acompanha a exposição o projeto A Postcard from Aleppo, uma mini ópera composta por Merlijn Twaalfhoven e executada por uma orquestra de músicos holandeses e sírios a partir de histórias de artistas de Aleppo, que enviaram relatos sobre suas vidas em cartões postais.

Os postais foram produzidos por integrantes do Art Camping, que é coordenado por Touma. O fotógrafo também é curador do Festival de Fotografia de Aleppo. Em uma realidade tão distante, o artista sírio alcança os olhos dos europeus com a fotografia. Mas mais do que uma exposição bem composta, é preciso entender que o trabalho de Issa representa a resistência da arte em um país devastado, um refúgio intelectual para cidadãos que vivem a realidade da guerra todos os dias.


A editora Paradox editou um livro do trabalho, que pode ser visto aqui.

Texto: Camila Domingues