J PRONUNCIADO EM INGLÊS

barbara farias
Aug 27, 2017 · 4 min read

poderia ser sobre uma dama branca de olhar cínico com duas intenções, num vestido com camadas de tecido. a pela alva que só deus sabe como se mantinham no século XVIII e o cabelo suspenso em cachos, rotinas repletas de chás, confeitarias e dilemas amorosos, sociedade londrina espanhola italiana europeia.

poderia ser mas não é.

é sobre ela que diz bom dia em duzentos idiomas diferentes a cada dia do ano letivo e eu dou risada sempre, porque parece ser da boca pra fora, mas ela é gente fina demais pra ser. vem caminhando de lá, sem expressão nenhuma e pergunta “quê que foi?” quando chega perto. boceja bem alto fazendo uns ruidinhos estranhos e amaldiçoa porque queimou a língua com café.

diz que tem descendência holandesa mas tem uns papos de quem só pode ter vindo de outro lugar, panspermia de outro planeta, de uma outra galáxia, extraterrestres e sushi. pizza de microondas, feijoada, piada no subway ou nem tão piada assim. decora aquelas letras sem melindre, as beats e as coreografias, tem um pezinho bem pequeno e um celular bem grande pra mão minúscula e rechonchuda. eu bem sei que ela não vai fingir que te curte se a tua vibe não lhe apetecer mas se precisar que tu faça algo vai acabar te adoçando com um meu bem querido meu anjo e vai te convencer, a barganha é só um dos dons que foram concedidos. viaja sem nunca ter provado entorpecente psicotrópico algum, não importa pra onde, só quer ir pra qualquer canto todos do mundo e até pros eua, fora no dia do compromisso marcado há sei lá quanto tempo atrás. dá uma preguiça tão grande…tem como desmarcar?

se interessa pelas coisas novas, pelas notícias, pelas curiosidades e põe uma cota de pins que ela sabe que não vai obedecer, escreve uma montanha de lembretes pra estudar mas despreza profundamente as notificações, raras as que lhe interessam. tem voz, ela estronda, uma força da natureza, um clássico que nem a audrey, que nem a elis e todas essas mulheres que transcenderam suas próprias estaturas pra se espalhar no tamanho da alma, que tem as asas do beija-flor e o olhar do felino, o coração do bicho que o maior coração tiver no reino animal.

eu que sei como é ser foco do teu afeto já enxergo por trás da superfície, admiro a tua necessidade de amenizar as coisas e as revoluções, todas menos a do proletariado. hoje vi o medo nos teus olhos, o assombro que dilatou de leve a tua pupila, enxerguei o teu desespero quando não conseguia enxergar saída pras minhas neuroses.

eu tive uma crise e a pus no meio dela irresponsavelmente. ela tava desesperada porque não conseguia fincar os meus olhos nos dela e os meus pés ali naquela escada de chão emborrachado, eu não precisava deles porque a minha tristeza criou asas, mas então senti o toque meio afagando meio me chamando pra real, escutei a voz e bebi da calma que ela quis me passar. eu me senti abraçada por todos os lados, como se em cada infiltração, por onde flui água da minha parede com papel desbotado houvessem aqueles olhos me pedindo concentração. me pedindo pra ficar. e foi por isso que eu fiquei, porque ela tava ali pra mim.

os sonhos populares da menina se distinguem pela realização que ela já ostenta ao falar, pela resignação e pela vontade ao dizer “deus quis” e ele quer, porque tu merece. se não pelo esforço, pela vontade de fazer o bem. cuida dos animaizinhos, cuida das pessoas, cura o mal do mundo com a tua boa-vontade.

ela é sagitariana e a alma não faz sua primeira visita.branca, muito branca, pálida demais: os tornozelos tem quase a cor de papel e da do apartamento quando a imobiliária entregou. quando foi que tu foi à praia pela última vez? ostenta uns dentinhos certinhos, de quem usou aparelho ortodôntico por um número grande e par de anos, que faz questão de mostrar depois de cada palavrão ou xingo que disferir na tua direção. tem uma cabeleira escura e cacheada que vem sempre molhada pela manhã, é uma lei que o universo rege. é as quatro estações que regem o ano.

abençoado seja quem encontrar os portões abertos e uma jennyfer disposta a conceder estadia. doce seja qualquer lábio que ela vá provar e seca seja qualquer escada que ela tenha que descer ou subir. que o mundo se curve aos seus pés e que eles estejam daquele jeitinho, com o esmalte tirado de qualquer jeito, que é pro mundo achar graça como eu achei.

dá a alguém a honra de ser o teu par, só se tu quiser.

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    a beladona, apesar de tóxica, possui benefícios e propriedades que podem ser aproveitados.

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