Sinto muito e falo pouco
um texto sobre abuso e estupro motivado por quase uma semana de mudez forçada por uma laringite que me obrigou a organizar meus pensamentos.
Sinto tanto, falo pouco. Minha vida toda. Não falo muito das coisas que sinto e foi por isso que passei grande parte da minha adolescência sentindo muito e me escondendo atrás de ser esperta, de ser muito boa nisso ou naquilo. E muito ruim com o corpo. Como se o corpo fosse, assim, essa coisa separada de mim e eu não estivesse nele. Mas estou. E a voz está também. Então eu descobri que cantava. E sou boa nisso. Me disseram. E aí eu era esperta, muito boa em cantar, e muito ruim com o resto do corpo. Na minha cabeça eu nunca era boa o bastante em nada, então ficava tudo nivelado.
Mas eu sentia tanto! Sentia falta dos meus amigos de infância, mas tive que mudar de escola. O que eu ia fazer? Sentia medo de não ser aceita, e não era. Sentia falta de poder falar o que eu sentia, mas nunca sentia que eu tinha espaço. Computador. Horas de internet discada. Fui aceita por gente que nem me via pessoalmente, mas já era aceita. E ouvida. E todos tão estranhos. É bom ser estranho entre estranhos. Nem precisava falar em casa, porque falava lá, com eles. Mudei de escola. Fui aceita, também pela turma estranha. A esse ponto eu já sabia que isso era parte formante da minha identidade e não me importava muito. Mas ainda assim, eu sentia muito mais do que falava.
Quando eu tinha dezoito anos eu tinha um grande amigo. Ele tinha sido, também, uma paixão do começo das paixões, mas bem antes. Ali, ele era meu amigo. Ele estava mal. Triste. Milhões de coisas acontecendo, e eu ali. Eu me preocupo. Acho que parte de não falar muito é ouvir demais e pensar nos outros para não pensar em mim. Ofereci ajuda, apoio. Ele falou, falou. Me beijou. Eu estranhei. Ele disse que só podia ser isso que eu queria quando eu chamei ele. Eu disse que era apoio. Amizade. Ele continuou. Eu segui.
Eu também não falava. Tinha medo, acho. E hormônios. Medo que ele se matasse. Medo de perder o amigo se eu dissesse não para o sexo. Fiquei. Era humilhante. Era triste e dolorido e me fazia bem mal, mas em algum lugar devia estar o meu amigo. E de algum jeito aquilo podia fazer ele se sentir melhor. E talvez eu também me sentisse.
Não senti.
Ele conheceu uma menina. Falava constantemente sobre como ela era horrível. E transava comigo. E eu nem sabia mais o que eu queria, mas achava que queria ficar com ele. Mas achava que ele queria a menina que ele falava que era horrível. Ele ficou com ela, e depois ficou se sentindo culpado. Continuou falando que ela era horrível. Será que eu era também? Pra quem ele falava de mim? Devia ser. Pra mim, eu era. Horrível, impotente. Minúscula. Nos vimos uma das últimas vezes e ficamos. Tinha passado um ano de horror, já. Sentindo muita coisa, também, mas sem espaço pros sentimentos. Aprendemos que sentimento não tem espaço na amizade, ainda mais na amizade que tem sexo. E falar deles? Pior ainda, não pode. Só pode ficar quieta e transar. E ser xingada. E pedir pra ser xingada. E apanhar. E deixar tudo acontecer, mas não querer nada.
Mas eu estava cansada. Eu quis um abraço. Ele deitou do meu lado e ficou de pau duro. Ele começou a se esfregar em mim, e eu disse “não”. Ele ignorou. Eu disse de novo, “não”. Ele ignorou. Eu pulei da cama e perguntei se ele ia mesmo me estuprar.
Muito tola, eu que já tinha sido estuprada por ele tantas vezes antes.
Ele ficou desconcertado com a palavra. Que poder tem a palavra. Se eu tivesse consciência antes, teria soltado ela no primeiro dia que ele me beijou.
Disse que não era isso, não era a intenção dele. Eu chorei. Eu disse que não. Eu mandei ele embora da minha casa.
Acho que ainda nos vimos depois: éramos amigos. Estranho. Ele começou a namorar a menina que ele falava que era horrível. Apaixonadíssimo. Me afastei.
Esqueci tudo. Lembrava dele e me sentia mal, mas esqueci tudo. Continuei a vida, falando pouco e sentindo muito. E sofrendo por isso. Nunca mais fui estuprada, mas sofria além da conta e ficava quieta. Nada de sentir, só sozinha. Aí senti junto. Foi incrível. O incrível daí virou maluco. Virou um pesadelo. Virou não-gosto-dos-seus-amigos. Virou crise de identidade e eu virei o bode expiatório. Sofri. Não falei. Quando falei, acabou.
Esse eu não esqueci. Vieram outros, melhores. Bons. Meio confusos, mas nada de errado. Sofria com a confusão e a regra silenciosa de sentir-sozinha, mas isso passa. Passou. Melhorei, também. Não me odiava mais (não tanto). Mas eu sofria, ainda, sem saber, o trauma do primeiro. E projetava. E sofria muito mais do que eu poderia ter sofrido. Vomitava e tinha insônia e medo, muito medo. De vez em quando mais, junto com a redoma de vidro. Como eu chorei lendo A Redoma de Vidro. Como é que podia eu ter todos aqueles sentimentos e sensações mesmo sem nunca ter sido diagnosticada por um psiquiatra? Mas eu sentia, tinha sentido tudo aquilo.
De vez em quando volta, a redoma. Um ar parado e tóxico que parece tão preenchido pela minha voz interna que eu não aguento mais me ouvir. A sensação de não conseguir me mover, ainda que eu me mova. Ainda que eu levante da cama e me arraste pro trabalho. Às vezes choro no carro sem saber por que.
Há três anos eu lembrei do que eu tinha esquecido. Do meu amigo dos dezoito anos e dos estupros. Eu chorei. Eu não sabia que aquilo estava ali. Eu estava passando por um momento ruim em uma relação longa e de repente eu lembrei. Eu fugi. Para não lidar com isso. A relação acabou. Veio outra, assim, logo depois. Fugi do trauma o tanto que deu.
Mas chega uma hora que não dá mais. O trauma pega a gente e a gente tem que olhar. Eu percebi que, quando lembrei dele há 3 anos, não contei pra muita gente. Ou contei muito veladamente. Acho que não estava no momento de lidar com ele, também. Descobri que escrevi um texto sobre, contando. Mas voltei a esquecer e enterrar.
Agora faz 10 anos e eu me vejo, às vezes, presa nisso. Demorei a ver. Recentemente tive o insight. (com ajuda terapêutica) de que era isso que me prendia. Ao medo, ao silêncio, ao apego ao conforto. Por que criar tinha ficado tão difícil conforme isso se aproximava. Percebi, antes do insight, que eu não sabia direito quem eu era mais. Daí fui procurar e pá: estupro. Fui estuprada. Diversas vezes. Fui abusada física e psicologicamente (e talvez até inadvertidamente para ele) por uma das pessoas em quem eu mais confiava. No início da minha vida sexual e afetiva. Que tipo de relação saudável comigo e com outras pessoas eu consigo construir em cima de uma fundação tão frágil?
Decidi contar assim, publicamente, porque é parte da minha história, mas não é quem eu sou. O que foi feito a mim não é minha culpa. Não fui eu ou algo que eu fiz. Não será o que vai me definir e me prender. Não mais. Eu crio muitas carapaças para dar apoio aos outros e me esqueço de mim, às vezes, e fica muito difícil de me abrir de maneira tão vulnerável, mas a força real vem dos momentos em que eu consigo fazer isso. E falar disso abertamente, e me livrar desse peso.
Nossa cultura incentiva, de certa maneira, esse tipo de relação. E faz com que as mulheres se calem diante disso, pela lógica de que a gente merece sofrer mesmo, que amor é difícil e é sofrido, que homem é violento e que fazemos o que eles querem pra sermos aceitas. Um dos motivos do silêncio, essa regra de que sentir demais é errado, faz com que milhares de meninas passem por situações assim. Quando sua filha, sobrinha ou aluna adolescente estiver sofrendo, de coração partido, dê espaço para ela falar. Um espaço seguro. Ela pode ter sido traída pela pessoa que ela ama e nem mesmo ter consciência disso. Mulheres adultas passam por isso também. Não é sua culpa. Não é você. Você não merece o sofrimento, a violência, a tortura psicológica. Amor não é sofrimento e estupro sistemático.
