AS PALAVRAS QUE SURTEM EFEITO

[pintura em tinta acrílica por Bela Sancho]

Reclamei não ter o que dizer para deus antes de dormir, então me prescreveram um pai-nosso e uma ave-maria todas as noites. Isso bastaria e isso eu podia fazer: já estavam mais bem decorados que o alfabeto inteiro e eu conseguia falar mentalmente as palavras cada vez mais rápido. Pouco mais de um minuto, e já estava livre para ficar no escuro pensando no que quisesse.

Eu não falava para que deus ouvisse, pois se pensasse que sim talvez suspeitasse que aquele bate-cartão não o convenceria. Muito menos, o contentaria.

Quando uma amiga morreu de modo espetacularmente brutal, uma dezena de anos depois, deus me deu seu troco. Não sabendo o que fazer comigo, de novo me aconselharam a lhe procurar. Descobri, naquele momento, que pelo menos comigo, não só era surdo como também se fazia de mudo. Recitei pais-nossos um atrás do outro e quase tão rápido quanto antes — dessa vez no ritmo quebrado das fungadas -, e continuei no escuro pensando no que tinha de pensar.

Nessa época passei a assistir mais repetidamente que de costume o filme “A Liberdade é Azul”, de Krzysztof Kieślowski. A história sobre uma mulher que, após um acidente de carro, perde o marido e a filha, além de certa dimensão de seu afeto, e é tornada silenciosa em meio a clarões azulados e sinfônicos, contornava também a minha dor. Eu podia olhar a vastidão daquele nada, esvaziado de frases. Levava-me luto adiante, quando estava tão propícia a brecar no desespero e somente. Reencontrei esse filme quantas vezes foram necessárias até chegar ao espaçamento de hoje — mais ou menos uma vez a cada três anos.

Também comecei a levar na carteira o “Solilóquio da Solipsista”, de Sylvia Plath. Carregar comigo o ensinamento de que o mundo tem o tom pelo qual nos decidimos era como ter por perto um coração de reserva. Sempre precisei materializar coisas. Se por um tempo chamei compensatoriamente o poema dobrado de “santinho”, depois, ensaiando uma heresia desenvolta e pagã, tomei-o por amuleto. E, então, talismã.

Até que esse ano, ouvi de uma amiga uma história contada entre risos, mas que é de uma beleza muito explicativa: certa vez, trabalhando como fotógrafa em um helicóptero, ocorreu algum contratempo que colocava quem lá estava em apuros — não me lembro se era o fim do combustível, ou ventos errados. De todo modo, ela, sem qualquer rigidez na assimilação de sua religião judaica, vasculhou sua cabeça em busca de uma oração, ao estilo cristão. Nada encontrando, recorreu a Fernando Pessoa, que lhe prestou a santidade.

Herta Müller, relatando seus dias de preocupação aguda na Romênia de Nicolae Ceaușescu, escreve que tinha o hábito de recitar para si os seus próprios poemas. Em um período no qual canções só podiam existir se suas letras exaltassem a terra e o povo sob o regime comunista, ir de encontro com suas palavras íntimas a lembrava de quem ela era. Como podem ser poderosas as orações certas — tendo encontrado as que lhe serviam, fez-se permanecer entre os vivos.