PROCURA-SE UMA IRMÃ

[pintura em tinta acrílica por Bela Sancho]

Lembro-me de perguntar o porquê de algumas crianças terem irmãos e outras não, e ouvir que certos casais queriam ter mais de um filho e outros não. Mas que também podia acontecer de um filho vir “sem querer”. O que me pareceu uma nebulosa escapulida, sem grandes consequências — como falar algo que não se deve, mas poder rir depois. Eu também suspeitava que meus pais não quisessem mais uma de mim, então rezava de vez em quando em prol do contrário: “Deus, faça vir uma irmã sem querer.” Não tendo sida atendida, restou-me, do lado da família de que fui mais próxima, ser, não só filha única, mas também sobrinha única e neta única.

Isso acabou me fazendo demasiado única. Demorei-me em entender que os olhos do mundo não eram os olhos da casa — esses, jamais distraídos ou desfocados. Não estavam todos me observando nem se preocupando comigo o tempo todo. O que é de um desalento encantador — não protagonizar. Saber-se contracenando. Ter com quem estabelecer equivalências, no revezamento móvel das gangorras.

Aos dez anos, tive uma porção de amigas que vinham com versões miniaturizadas de si mesmas: irmãs três anos mais novas. Eu me perguntava como podia toda aquela meia dúzia de pais e mães terem tido a mesma ideia duas vezes e ao mesmo tempo entre si. De todo modo, aquelas duplinhas eram uma imagem adorável, mas um pouco tristonha para mim. Acompanhava a sensação de que eu tinha de ter minhas conversas comigo mesma.

Inventei um jeito de desenhar menininhas parecidas entre si. Também brinquei de escrever cartas de chantagem e denúncia, ameaçando “contar para a mamãe” sobre os batons dela roubados pela destinatária — minha irmã inexistente. As brigas entre irmãs eram um pequeno espetáculo que eu assistia, com curiosidade, apreensão, e o desejo de também me equilibrar, aos tapas, com alguma coisa.

Nessa época, tive uma melhor amiga na escola. Michaela não era filha única, mas tinha um outro sistema de irmãos que não me deixava tão desemparceirada de olhar. Certa vez, ela trouxe de presente para mim uma “pulseirinha da amizade” — uma trancinha de linhas, na qual tínhamos de dar três nós. Combinamos que as pulseirinhas nunca romperiam e que nossa amizade seria eterna.

Isso inaugurou para mim toda uma prática futura de colarezinhos com duas metades de um coração, ou sol e lua, aneizinhos idênticos, chaves duplas. Algo que se carregasse para onde qualquer uma fosse mas que denotasse a presença da outra. Em suma, o funcionamento básico das alianças. Eu não podia ter laços sanguíneos com minhas melhores amigas, mas eu tinha pactos mágicos — que eu me convencia serem mais poderosos do que um sobrenome comum.

Quando minha pulseira de linha desmanchou em um banho, fiquei desesperada imaginando o significado que minha amiga enxergaria naquilo. Surgiram na minha cabeça frases como “nossa amizade se rompeu, assim como a pulseirinha que você deixou romper!”, “se sua amizade fosse forte o bastante, a pulseirinha não teria se enfraquecido!”, e cheguei trêmula e chorosa me explicando e desculpando. Ela me mostrou seu pulso: a dela já tinha caído há mais de uma semana. Deu de ombros, e prosseguimos.

Na adolescência, minha irmã faltante passou a se ausentar novamente. Eu imaginava que se eu tivesse uma irmã, ela seria mais rebelde, mais corajosa do que eu — “ela sim saberia enfrentá-los todos, dizer-lhes umas verdades!” Se eu tivesse uma irmã, ela seria mais problemática do que eu — “aí sim veriam o que é um problema de verdade!” Mas já não dava mais tempo de ela nascer a tempo de me interceder, e eu não tinha por que me demorar nessas condicionais. Foi quando encontrei uma nova melhor amiga e estabeleci com ela uma familiaridade própria.

Verônica tinha a pele muito clara, cabelos volumosos, escuros e ondulados, um nariz comprido, era magra e alta — exatamente como eu poderia ser descrita. Dezenas, talvez uma centena de vezes ouvimos que éramos muito parecidas — juntas ou separadas. Uma vez, totalmente fantasiada e maquiada, vi alguém me apontar e comentar “Olha, é igual à Verônica!”, sem que ela estivesse ao meu lado para facilitar a comparação. Na universidade, sozinha a caminho da minha aula, pessoas desconhecidas me perguntavam se eu conhecia aquela menina da Química, e ela me relatava o inverso. Uma aludia à outra.

Certa vez, deixamos de nos falar por um ano, mas então nos telefonamos. Quando desliguei, minha mãe me perguntou se eu tinha voltado a falar com a Verônica. Perguntei-lhe como sabia: “Você estava dando aquela risada que só dá quando fala com ela”. Com efeito, tínhamos não só uma risada, mas toda uma entonação, ou um verdadeiro sotaque comum que só usávamos entre nós.

Depois de alguns anos, nos acostumamos e passamos a nos entediar com pessoas próximas ou distantes bisbilhoteiras notando nossas semelhanças. “Vocês são irmãs?” Ela mesma já tinha uma — que também lhe estava parecida, três anos mais nova — e não precisava disso. Eu, ao contrário, permanecia secretamente acalentada com a ideia. De todas as coisas que indagavam sobre nós, essa era a minha pergunta favorita.

Na Itália, ganhei uma amiga nos meus últimos dois meses lá. Ivana vinha da Macedônia. Viajamos juntas e permanecemos juntas no tempo que me restava. A certa altura, ela cortou o cabelo no mesmo modelo maluco que estava o meu — assimétrico. “Vocês são irmãs?”, ouvimos algumas vezes. Bocas pequenas, narizes pontudos, cabelos para o lado? Sim. Mas também um estranhamento, uma melancolia, um humor catastrófico, um desejo da beleza. O ensaio constante da liberdade, o tato das rotas de fuga, a tentativa de expressão.

Não éramos irmãs, mas concordamos sempre que o coração era, e tanto. Não só irmão, mas inclusive gêmeo. Tínhamos uma espécie de superstição espírita a respeito do nosso encontro de almas. Quando eu já estava de volta ao Brasil, por sua influência optei por seguir a arquitetura dos jardins. Ela quer voltar a escrever e pintar ao acompanhar pela internet o que tenho produzido. Por fotos, descobrimos a semelhança entre o olhar, o sorriso grande e a barba dos nossos namorados desgrenhados. Ambas estamos inventando nossas próprias casas.

Nossa conversa é de segunda mão — obviamente, não temos a língua materna em comum — e é entre as triangulações, abreviações e insuficientes equivalências de um segundo idioma que conseguimos nos fazer entender e encontrar, há cinco anos. Lamento que eu não entenda seu caderno em alfabeto cirílico e que ela não possa ler de imediato esse texto, assim que se faz pronto.

Se eu tivesse uma irmã, com uma língua, uma genética e um repertório familiar comuns, saberíamos nos entender profunda e mutuamente? Ou seríamos incomunicáveis? Seria ela um espelho ao qual recorrer? Ou tão bem adaptada aos arredores que eu lhes estaria ainda mais estranha? O contraste me acentuaria? O número um seria ainda mais ímpar, só e único? Eu já não a busco imaginária, mas a encontro em pares possíveis. Creio que, tão logo, as amigas que estão por vir não necessariamente terão o mesmo penteado que o meu. E que eu ser parecida comigo deve me bastar.