É minha esta cidade.

É o seguinte: eu amo o Rio. (E isso foi um ponto.)

Não tenho culpa nem desculpa para amar o Rio, mas merece explicação, porque o Rio que eu amo é muito mal compreendido por gente que acha que Ipanema é Ipanema pelo PIB local e quer fazer da Garcia uma Oscar Freire, quando Ipanema se tornou Ipanema porque era a vizinha mais pobre de Copacabana, porque, sim, tem favelas, graças a Deus, porque sempre teve gente de todos os estratos, porque tinha muito mais bangalôs do que casarões, porque lançava moda feita muito mais de criatividade do que de tecidos sofisticados.

E o que é o Rio? Ah, certo, o Rio é a paisagem deslumbrante que Deus nos deu e todo aspirante a turista conhece, nem que seja de fotos, e, sim, não há como ver e não contemplar com devoção, curvar-se diante de uma inteligência superior, buscar no alto os braços abertos e amar. Não, não, é só o mar, as praias e as montanhas, é a luz.

Certo, mas isso qualquer um de camisa florida e canga com a bandeira do Brasil sabe. E o que mais? Ah, há a História, pelo menos, da Colônia e, sobretudo do Império, até JK, temperada por uma população indígena autóctone com fama, entre antropólogos, de excepcionalmente afável e comunicativa. Há essa história que deixou por aqui um certo entendimento do Brasil e uma certa noção de fidalguia, algo que está não só em um ou outro, relativamente poucos, palacetes sobreviventes e em monumentos como a Quinta, o Paço e o Jardim Botânico; não só nas famílias de todo o Brasil que lançaram raízes aqui; não só nos barões e viscondes nomes de rua, mas também, principalmente, numa forma de sentir e viver que sobrepõe a noção de liberdade e valor pessoal ao dinheiro. Pode, eventualmente, resultar em algum esnobismo, frequentemente, em mais individualismo, e em consequente desordem, do que o recomendável e no atendimento comumente péssimo do comércio. Contudo, resulta também numa ideia de elite que se estende a todas as classes, resulta no artista pobre cuja glória ninguém ousa medir pela conta bancária, no senso comum de que seria ridículo calcular o valor de um intelectual pelas estantes de aço num apartamento de fundos, resulta num sentimento geral de ser o dono da rua, numa muito salutar irreverência e num jeito que, creio, nem se pode chamar de hospitaleiro, mas inegavelmente e, por vezes, desrespeitosamente acolhedor, que confere cidadania ao sujeito que mal colocou os pés aqui e, por isso, espera que ele se ajuste ao nosso modo de ser sem pedir explicações. Resulta na confusão e na efervescência, numa simplicidade altiva, às vezes dulcíssima, às vezes cruel, que quase nunca admite simplórios.

E o que mais? Bom, há, mais que tudo, essa gente a passar e a me ver passar; há a caixa do supermercado que não me dá bom dia, mas se vira pra me ajudar com a coisa mais impossível se eu olhar nos olhos e confessar meu drama pessoal; há o sapateiro que me viu crescer passando a caminho da escola; há o português dono da mercearia que não se adapta mais a Portugal, que segura as contas e conhece a vida financeira de cada morador dos três quarteirões adjacentes e ensina aritmética ao filho do porteiro do prédio ao lado; há a permanente assembleia de porteiros paraibanos da minha rua, todos vindos de algum lugar perto de Campinha Grande; há os meus amigos; há a minha família; há os meus avós e bisavós no São João Batista.

Ah, qualquer um em qualquer cidade tem tudo isso? Pois é, acontece que essa é a minha cidade, e eu amo, como quem… ama e porque ama espera, mas não exige perfeição para amar.

Sim, estou um pouco atrasada, mas tudo bem, eu sou carioca; vale o amor.

https://www.youtube.com/watch?v=jkGIlr5ih8I