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Já virou tradição, toda sexta-feira aguardo por um e-mail. Pode parecer bobeira mas a força do hábito é semelhante à aquela força que nos prende ao chão.

Para que vocês entendam o que estou falando irei compartilhar um conto que recebi no dia 18/03/2016.

A Madrugada
Pega a cena. O presidente da Câmara sorrindo, boca larga, aquela morosidade de sempre nos movimentos, enquanto o televisivo dominical exibe seus luxos, viagens a hotéis sete estrelas, visitas constantes a restaurantes de todas as notas, cifras e mais cifras. De ceroulas e com a luz apagada, ele assiste a tudo no escuro da sala, os óculos refletindo os pratos de milhares de dinheiros no brilho da televisão e ri, não à toa, mas sabendo que ele deu a volta em todo mundo a vida toda e, agora, é só mais uma noite em claro.
 
 Ele e ela também não dormirão. A madrugada avança e eles continuam procurando telefones, cada um na sua casa, para destruir. O juiz já foi para casa e goza há horas de sua própria companhia. Prova ternos em frente ao espelho grande, enorme, dá mais um gole no copo e ajeita outro nó de gravata. Treina sua pose hercúlea e corre pro closed atrás de outra cor de camisa que combine melhor. Ele sonha com o dia que vai ser a vez dele.
 
 Não só esse, mas muitos esperam sua vez. O que adora mandar a polícia sentar o cacete viajou para alguma cidade distante da capital pra poder, né, deixar a gentalha pra lá. Mas deixou ordens expressas pra polícia nenhuma bater. Não nesses, né. O vice lê em voz alta, no seu latim fluente, o próximo queixume que pretende tornar público. Se estamos numa merda de democracia, caralho, ele há de poder expressar seus desgostos. O segundo, não vice, o segundo mesmo, esse bate freneticamente o cartão de crédito contra o espelhinho. Mas ele nunca vai atrás, só manda alguém buscar. Esse não dorme tão cedo.
 
 Hoje mais cedo um garoto apanhou por atravessar a avenida vestindo vermelho. Levou chutes, socos e pontapés. Um homem cuspiu na cara dele. Em casa, banho tomado, curativos feitos, deram-lhe um relaxante e fecharam a porta do quarto pra ver se ele descansa. No escuro, ele mantém o olho aberto.
 
 Uma e quatro da manhã e eu sentei pra escrever este texto. Sono nenhum. Acho que hoje, ninguém aqui citado dorme.

Gostou? 
Então pega essa dica, o amigo Jader Pires (que é escritor e editor do Papo de Homem) publica toda sexta-feira a newsletter “Meio-Fio”, é um projeto pessoal muito bacana, o link para se inscrever está aqui: http://jaderpires.com.br/ (é só colocar o nome e e-mail).
Aliás, se você quiser conferir a edição do conto acima é só clicar aqui. =)