Resenha: IT, a coisa de Stephen King

It (1990)

A vontade de ler “It” surgiu quando um dos personagens do filme “Stuck in Love” empresta o livro para a namorada e diz que este é um daqueles livros que “é sobre tudo”. Clique! Na hora eu sabia que tinha que ler aquele livro! Quando vi que à minha frente eu tinha um calhamaço de nada mais nada menos que 1100 páginas, confesso que amarelei, mas ainda bem que fui em frente. “It” é com certeza um dos melhores livros que já li.

A história se inicia quando Mike liga para seus seis amigos de infância que formavam o autodenominado “Clube dos Otários” para dizer que “A Coisa”, um ser maligno assassino de crianças, que eles haviam derrotado 27 anos atrás tinha voltado. Surpreendentemente, nenhum deles se lembra do que aconteceu, mas se lembram do juramento de que se A Coisa voltasse, eles acabariam com ela de vez. Assim, vamos acompanhando o retorno dos adultos à cidade de Derry e assistimos aos flashbacks da infância deles à medida que as memórias vão retornando.

Ao contrário do que pode ser sua primeira impressão ao ouvir a sinopse, o livro é extremamente pesado e nada infantil. Racismo, uma versão nortista da KKK, homofobia, violência doméstica, bullying e vários estágios de relacionamentos abusivos estão presentes na narrativa. King faz uma crítica fortíssima aos mais diversos problemas sociais e, acredite, a violência e a crueldade das pessoas nesse livro são muito mais assustadoras do que as aparições da Coisa.

Concomitantemente, a amizade das crianças, a força delas, sua maturidade e união também impressionam. Nesse sentido, o livro é extremamente doce e tocante. Os personagens são muito cativantes, cada um à sua maneira, mas confesso que aqueles a quem mais me afeiçoei foram: Ben, o inteligente, rato de biblioteca (❤), romântico e gordinho do grupo e Richie, o palhaço da turma, hiperativo, que não consegue manter a boca fechada nem nas piores situações e gosta de fazer Vozes (caipira, espanhol, policial irlandês).

Em meio aos acontecimentos, também temos trechos do diário de Mike, que quando adulto se tornou bibliotecário, em que ele conta sobre momentos da história da cidade de Derry em que A Coisa atuou. Um dos trechos que mais me tocou foram as narrativas do pai de Mike sobre o que ele sofreu quando era soldado e o Incêndio no Black Spot:

“A Legião da Decência Branca era a versão do norte da Ku Klux Klan, sabe? Eles usavam os mesmos lençóis brancos, queimavam as mesmas cruzes, escreviam as mesmas mensagens de ódio para os negros que achavam estar passando dos limites ou assumindo empregos que eram de homens brancos. Nas igrejas em que os pastores falavam sobre igualdade negra, eles às vezes colocavam bananas de dinamite. A maior parte dos livros de história fala mais sobre a KKK do que sobre a Legião da Decência Branca, e muitas pessoas nem sabem que ela existia. Acho que pode ser porque a maior parte das histórias foi escrita por pessoas do norte, e elas têm vergonha.” (página 388)

No geral, eu simplesmente amei o livro. A narrativa é muito fluida, os personagens são incríveis e a história é muito bem construída. No final do livro, porém, algumas coisas me incomodaram. O autor gasta muitas páginas descrevendo o que está acontecendo em Derry enquanto os personagens estão enfrentando A Coisa e simplemente dá vontade de pular aquela enrolação toda que não acrescentou em nada. Também me incomodou muito o que a Beverly fez para que os garotos conseguissem sair do subsolo da primeira vez que enfrentaram a coisa. Achei muito estranho e desnecessário. A cena final da história, porém, com Ben em Silver, sua bicicleta, é simplesmente maravilhosa e mágica.

Quanto à Coisa em si, eu me surpreendi. Achei a explicação muito mística e bem diferente do que eu esperava. Ainda não sei dizer muito bem se gostei ou não, mas ela foi bem construída.

Porém, os problemas são bem pequenos em comparação com o quanto este livro é bom. Se você sentiu vontade de ler, não se intimide pelo número de páginas, porque elas passam voando! Comecei lendo umas 100 páginas por dia mas por volta das 300 páginas eu já estava lendo cerca de 300 por dia e sem vontade de parar! Posso dizer com certeza que esse livro vai ficar para sempre em minha memória.