Às bruxas que conheci
Sou amiga de mulheres fortes. Não cito nomes, porque, nessa caça às bruxas atual, o melhor mesmo é guardá-las para mim mesma e contar o feitiço, mas não o nome da feiticeira. Não sei bem desde quando me cerco delas, dessas mulheres. Mas posso dizer que estes contatos passaram a me definir e a me fortalecer enquanto ser.
É engraçado. Todos tentam descobrir os segredos da maçonaria, aquele lugar repleto de homens. Só que deviam mesmo é tentar se infiltrar num grupo dessas bruxas. Digo bruxas, porque, para a sociedade tradicional, não haveria melhor definição. São seres livres, que deslizam e flutuam pelo mundo, ignorando a moral, as leis invisíveis do patriarcado e matando homens simbolicamente, tal como Freud dizia que devíamos matar nossos pais. Elas não precisam deles. Algumas se abdicaram verdadeiramente destes, outras se relacionam com os pobres, por puro desejo físico, mas se entendiam, porque os subestimam e os acham previsíveis, quase como um roteiro cliché de Hollywood, com estrutura clássica e nada de finais abertos.
Certa vez, enquanto estava em Londres, conheci uma mulher linda, mística, que fazia medicina chinesa e tinha estado em todos os locais verdes que você pode imaginar. Ela tinha um sonho: passar um tempo com xamãs para aprender medicina natural. À medida que contava as histórias, ofereceu-me um chá e abriu um armário que parecia um verdadeiro cenário de alquimia. “Veja, eu adoro chás, faço chá como ninguém, qual tipo você gosta?” Continuei, então, a ouvir aos relatos de viagem daquela mulher com sotaque britânico, que tinha nascido na Lituânia e que já tinha estado na Ásia, na África, na América do Sul e que tinha o sonho de morar no Brasil. “Aquele lugar é intocável”. Ela dizia. Vez ou outra, pergunto-me se ela conseguiu, enfim, fazer um “estágio” com os xamãs e o que estaria fazendo. A imaginação, em si, é poética, e me permito permanecer na dúvida, explorando as possibilidades.
Existe uma outra mulher, forte como um touro, que também já viveu muitas aventuras. Esta, em si, é uma das mais presentes na minha vida. Ela fala de forma expansiva. É carioca e grita muito palavrão. “PORRA, BELLA, CÊ TÁ DE SACANAGEM?”. Talvez seja essa uma das frases que ela mais fala para mim. Grita assim, criando gestos exagerados, usando palavrões para demarcar vírgulas. Ri muito. Fala de política, faz rituais na lua cheia. Quando sinto mau olhados, peço a ela ajuda para proteção. Ela, então, mentaliza, conversa com orixás, envia cartas à lua e ao sol. Ao viajar, também se deixa largar pelo mundo. Flerta com homens e os seduz brilhantemente para, no final, satisfazer apenas os próprios desejos. Certa vez, enquanto estava na Colômbia, conheceu um homem lindo. Acabou por ir para a casa dele. Ao chegar lá, deparou-se com um facão enorme. Ela, então, abismada, fez o que qualquer bruxa faria: pegou a arma e andou na direção do homem, apontando-a para ele. Perguntou, então: “Qué es eso?” O homem, que tirava duas cervejas da geladeira, olhou para ela e, sem se surpreender, disse apenas: “Esto? Cortar la hierba.” E apontou, então, para uma verdadeira montanha de maconha. Uma mulher moldada jamais viveria estória como tal. Mas como disse, conheço bruxas. E tenho orgulho disso.
A bruxa mais recente que conheci divide comigo as melhores gargalhadas. Vivemos, juntas, em um verdadeiro melodrama, enquanto estamos presas em uma nova versão de Stars Hollow, de Gilmore Girls. Exageradas, criamos situações absurdas. A bruxaria que exercemos, todos os dias, é a de não nos importarmos. Erguemos a cabeça para xenofobias vivenciadas em terras estrangeiras e nos deixamos ser espontâneas, sem nos preocupar com a pequenez da cidade e da cabeça das pessoas. Além disso, não nos limitamos à noite para viver. Ao explorar bares dessa nova Stars Hollow, ultrapassamos o nascer do sol e nos deixamos conhecer pessoas aleatórias. Nos deixamos dançar em um canto qualquer, na companhia de completos desconhecidos. Essa bruxa tem um vestir elegante. De longe, jamais seria confundida com uma. Mas o perigo dela está na liberdade. E nós sabemos bem que nossa sociedade tem medo de ser livre.
Dedico, então, esta crônica às bruxas que vou conhecendo por aí. Protegerei a todas. E, se possível, ajudarei outras a aprender essa arte de viver milenar, que se resume a ignorar normas pré estabelecidas e a questioná-las todos os dias.