Jornalista?

Isabella Gonçalves
Nov 5 · 2 min read

Sou jornalista, mas tenho dificuldade em me relacionar verdadeiramente com a profissão. Veja bem, tenho pânico de telefone. Isto é um problema. Para que eu passe a te ligar voluntariamente, sem suar frio, pode saber: o nível de intimidade já está alto. No geral, prefiro as mensagens de texto ou de áudio. E, mesmo assim, sempre as escuto depois, para ter a certeza de que a minha voz não saiu esganiçada, de que eu não paguei nenhum mico e de que há todas as informações por ali. No WhatsApp, procuro pontuar cada uma das vírgulas e se falta uma letra, se cometo um erro de concordância, já penso logo em ligar para Universidade Federal de Juiz de Fora e oferecer o meu diploma de volta. Nunca cheguei a fazê-lo, entretanto. Mas dramática como sou, a cena me aparece logo pela cabeça. “Senhor reitor, não sou merecedora do título. Pode pegar de volta. Obrigada. E desculpa o transtorno”.

Veja, a dicotomia do ser jornalista, na minha vida, perpassa por algumas questões. Eu não tenho o perfil completo. Gosto de escrever. E muito. Sempre o fiz, desde que estava na sexta-série. Fascinada pelas letras como o era, tinha cadernos e cadernos com estórias. E, novamente, como sou dramática, não dou desconto para a Isabella de doze anos. Leio e começo a dar sermões na pobre coitada, corrigindo a grafia e a chamando de burra. Não sei se isso é doença. Mas talvez eu devesse mencionar na terapia. Pelo menos, tenho a tranquilidade na alma de saber que, felizmente, não tenho a capacidade de voltar no tempo para causar uma crise de auto estima e uma síndrome de impostor na pobre criança. Esse fato, em si, já me acalma.

Outro problema na minha vida: o audiovisual. Eu não gosto muito de câmeras. Na infância, acho que não desenvolvi a coordenação motora fina, então me tremo toda. Além disso, não tenho lá paciência para editar os vídeos, ou mesmo para fazer um stand up olhando para a câmera. Gosto mais dos offs, em que eu narro o acontecimento por trás da imagem, sem me exibir. Aliás, a minha vida é um eterno off. Com exceção do teatro, nunca gostei muito dos holofotes. Prefiro assinar meu nome num texto mesmo, bem de longe e, de preferência, sem foto. Tanto que aqui no Medium, uso óculo escuros.

Mas, de vez em quando, reflito que posso me considerar sim jornalista. Apesar de todos os meus problemas,posso dizer, tal como dizia Eliane Brum, que a arte está na escuta. E eu adoro escutar (e gargalhar, lógico). Em uma mesa com personagens, já traço o perfil completo e me delicio com as histórias. Me considero verdadeiramente privilegiada por poder ouvi-las. Esses seres, com os quais me relaciono no dia a dia, têm uma beleza pura de se expressar. Essa sim é uma verdadeira característica de jornalista.

Isabella Gonçalves

Written by

Doutoranda em Ciências da Comunicação, MSc em Comunicação e Jornalista.

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