Bem melhor assim

Um respiro na loucura

Vamos sair na quinta feira? As propostas inesperadas e despretensiosas costumam ser as mais interessantes. Muitas vezes passamos meses tentando encontrar com alguém e nunca dá certo, sexta não consigo, sábado tenho um aniversário. E terça? Hmmm, talvez eu tenha uma reunião até tarde, mas acho que consigo sair mais cedo. Nos falamos, te aviso, ok, e passa tanto tempo sem que nada aconteça. O destino escolhe os encontros que podem acontecer.

Sim, quinta feira me parece ótimo. Combinado então, até lá. Até.

Eles simplesmente foram, assim, sem muito planejamento ou expectativas. Foram.

Se encontraram. Era uma noite agradável de inverno, não fazia frio nem calor. Ele usava um casaco verde bem fofinho e ela uma camisa rosa clara e um cachecol de bolinhas. Se cumprimentaram um pouco sem jeito, sentaram-se lado a lado e começaram a conversar.

Durante a conversa ela foi percebendo que ele parecia mais interessante do que imaginava, tinha um sorriso bonito e o tom de voz era agradável. As entonações que usava, o jeito de mexer as mãos e segurar a xícara de café. O cabelo, a barba. As ideias. Caramba, as ideias! Como seria possível que estivessem tão alinhados, com os mesmos planos e objetivos para a vida? O destino escolhe os encontros que podem acontecer.

Do café passaram para o vinho e tudo foi ficando derretido. O tempo, o tom da conversa… eles. Ela já com as bochechas rosadas prestando atenção enquanto ele contava histórias. Riam. De tanto baterem sem querer as pernas um no outro debaixo do balcão, decidiram intuitivamente parar de pedir de desculpas e deixar como estava. O destino escolhe a única mesa disponível no bar.

Depois de uma ida ao banheiro, ele se sentou um pouco mais perto e os dois conversavam tão próximos e tão cúmplices que parecia haver silêncio. A música alta e as vozes das pessoas ao fundo viraram zumbido e naquele balcão inteiro, naquele bar inteiro, naquela rua inteira, naquele bairro inteiro, naquela cidade inteira, no universo inteiro. Não tinha mais ninguém além dos dois. O destino escolhe a melhor hora para um beijo acontecer.

E aconteceu. Leve, fácil, de encaixe, textura, gosto, temperatura, intensidade e duração perfeitos. Um primeiro beijo com tudo o que tem direito, inclusive a sensação de alívio por ser tão bom. Um primeiro beijo com tudo o que tem direito, inclusive um segundo. E um terceiro. E vários outros beijos leves e fáceis, de textura, gosto, temperatura, intensidade e duração perfeitos. O destino escolhe os beijos que devem acontecer.

No dia seguinte, já bem tarde, ela ainda deitada na cama com os olhos semi abertos escuta o celular avisando a chegada de uma mensagem.

“Bom dia, linda! Acordei com vontade do seu beijo!”

Ela fecha os olhos, respira fundo, sorri e pensa: assim é bem melhor. Um dia seguinte que dá vontade de mais um dia inteiro e não um dia seguinte que dá vontade de sumir do mundo. Quando as coisas são feitas no meu tempo, quando eu me respeito, respeito minhas vontades e meu jeito de me relacionar, inevitavelmente eu só vou me relacionar com pessoas que vibrarem na mesma frequência. Eu não precisei atropelar nada, não precisei fazer nada que eu não quisesse, não precisei me forçar, me violentar. Eu pude sentir. Eu pude conhecer mais do outro, eu pude construir a vontade de estar junto. Eu pude degustar. Eu pude olhar, reparar, provar. A preciosidade que é. O toque, o cheiro, o olhar, o próprio beijo. E acho tudo isso tão importante, tão essencial. É o que não faz ficar vazio. E assim é bem melhor pra mim. Bem melhor…

O destino escolhe os encontros que podem acontecer. Mas agora ela sabe, ela é quem escolhe o dia seguinte que vai ter.

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