Reencontro

Ela chegou em casa. Não sabia o que fazia primeiro, se tirava as botas molhadas, se deixava o guarda chuva no chão, ou as chaves no gancho da parede, se largava a mochila, se desligava os fones de ouvido que tocavam mais uma do Semisonic. Fez tudo ao mesmo tempo. Olhou-se no espelho, o coque bagunçado no alto da cabeça denunciava um dia cheio. A pele grudava com o suor do metrô das 18:30h. Então, olhando sua própria imagem ali na sua frente, tomou uma decisão. A de se presentear consigo mesma.

Tirou toda a roupa do corpo com rapidez, pegou as últimas velas com cheirinho de cereja que restavam na estante, acendeu uma a uma e as colocou espalhadas por todo o banheiro. Colocou o som de Milo Greene pra tocar e soltou os cabelos, que caíram ondulados pelos ombros depois de presos enrolados por tanto tempo.

Ligou o chuveiro, esperou alguns segundos até que a água esquentasse, e foi molhando devagar, os pés, as pernas, os braços, depois a barriga, o peito, costas, e finalmente a cabeça. Deixou a água quente cair, sentiu o cabelo escorrer e o rímel borrava inteiro bochechas abaixo, e ali parada ficou por um bom tempo, concluindo: está tudo bem. Depois de tanto tempo longe de si mesma, da sua própria vida, envolvida em tantos problemas bobos que pareciam gigantescos, depois de tanta ansiedade, tristeza, tanta angústia por sabe-se lá qual motivo certo… Está tudo bem agora. Tudo em paz, e no seu devido lugar. Ela repetia mentalmente, como um mantra, “eu estou comigo, eu estou comigo, eu estou comigo” e sorria com o cantinho da boca.

Ensaboou os cabelos, passou condicionador, lavou o corpo todo com sabonete cor de rosa, tudo sem pressa. Virou-se para a parede atrás de si, apoiou a testa no azulejo molhado e, naturalmente, levou a mão até a vagina. A respiração começou a se acelerar, o peito subindo e descendo depressa, movimentos circulares com o dedo do meio excitando seu clitoris aos poucos, as pernas levemente abertas, os pensamentos passando rápido e sem nenhum julgamento, amiga, amiga, ele, ele, um pau, o outro, ela, ele, aquele outro, ele, um seio, ela, uma vagina, amiga, ela, eu chupo, aquela outra, ele chupa, ela, ela, chupa, ele, ele, el… Flashes de fotografia brilhando na retina segundos depois da foto tirada. Um gemido longo, a respiração entrecortada, ela se contorceu inteira sem afastar a mão de si mesma, a água quente caindo, a música virou um zunido longíquo. Uma risada sonora. Ela jogou o pescoço para trás e sentiu a água caindo do chuveiro direto em seu rosto. Sentiu a independência, a liberdade. Obrigada, Universo. Obrigada por este reencontro comigo mesma. Eu estou comigo. Ela beijou e mordeu devagar os próprios braços, sentindo a textura molhada da própria pele. Escreveu no vidro do box embaçado um nome. Sorriu de novo. Esse era apenas mais um típico caso de amor, de tantos que já passara em sua vida, porém esse com certeza iria durar para sempre, ela soube. Escreveu seu próprio nome, e não havia sinal mais forte. Estava completamente apaixonada por si mesma.

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