Demanda em forma de caligrafia

O problema de quem escreve é que chega uma hora em que as palavras demandam serem escritas. Te acordam na madrugada, te distraem daquilo que é preciso ser feito, te impedem de dormir e te prendem ao papel na hora do almoço. Elas exigem atenção. Não dão paz ao escritor até serem postas em pauta.

O leitor pode pensar que é de quem empenha a caneta que provém a personalidade que as palavras adquirem. De fato, isso ocorre em muitos casos. Mas de vez em vez, as palavras já têm personalidade própria, já têm uma voz, um tom. E, quando isso acontece, o discurso toma vida e se espalha no papel em branco disposto na frente do escritor.

Me parece que os sentimentos que o autor aglutina ao longo do tempo, a permutação de ideias entre seu eu e ele mesmo e a intensa e contínua atividade do pensar formam aquelas palavras obstinadas a serem lidas e ouvidas. Elas ganham tamanha força que passam a circular nas veias do escriba, poeta, dramaturgo e compositor, esperando somente um corte, um mero flagelo ou resquício de dor para sangrarem. E quando isso ocorre, elas se derramam em um fluxo decidido.

Quando enfim a hemorragia cessa, o possuidor dessas atrozes palavras sente-se leve, como se um fardo houvesse sido tirado de suas costas. Independe se o resultado daquela estampa de sangue em forma de caligrafia tenha sido um verbete de paixão, uma declaração de um amor platônico, uma poesia de saudade, um manifesto de clamor à pátria ou uma ode aos herois; se aquelas palavras eram bonitas ou se queriam dizer algo bom, elas são um pedaço roubado da alma do autor.

Uma vez lá, no papel, lugar onde sempre pertenceram, demandam serem lidas. E quem as desenhou com o próprio sangue as lê e relê. Incansável, em busca de erros, visando a perfeição de sua obra, a imortalização daquele pedaço de si mesmo que lhe fora roubado. Quando por fim sente que não pode fazer mais nada, que as palavras já sugaram tudo que ele podia dar, coloca o ponto final. Elas já o atordoaram demais. As palavras ainda assim, como se não satisfeitas e saciadas com a devoção do escritor, demandam serem lidas por todos os olhos possíveis. Precisam de um novo hospedeiro. O autor, ciente disso, realiza o que os ossos do ofício lhe impulsionam a fazer e divulga suas linhas, compostas daquelas palavras que penetram a mente quando lidas e martelam seus significados sempre que se pensa nelas; que intrigam o leitor, o levando a meditar; que provocam curiosidade e, em tempos, repulsa; e que deixam em quem as leu a sensação de insaciável busca para compreendê-las por completo. Mas ele, o autor, está livre delas. Que atormentem o próximo leitor que pousar os olhos ali.

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