Meu feminismo a lá Bradshaw
Não é de hoje que participo de algumas discussões ao vivo e virtuais sobre o feminismo nos nossos dias, mas nossa jornada começou há muitos anos e o meu feminismo consciente (minha mãe foi outro grande exemplo, mas sempre silencioso) começou quando eu tinha doze deles.
Tu não é escolhida. Tu que escolhe! — minha tia
Minha tia não me deixou dúvidas que ela estava falando de sexo. Com homens. Com pessoas que iriam se achar superior em um momento de flerte. Mas que na verdade a detentora do poder é quem escolhe, quem decide. E quem decido sou eu pois sou a única pessoa que deve poder ou não decidir sobre meu corpo adulto. No momento em que houve esse empoderamento em relação a uma interação possivelmente amorosa e possivelmente sexual, todas as outras relações seguiram o mesmo exemplo.
Com essa mesma idade descobri a Carrie e a Olivia.
Quem? Olivia Benson do seriado Law & Order: Special Victims Unit e
Carrie Bradshaw do quarteto fantástico que circulava a Madison Avenue no seriado Sex and The City. Por cerca de 30 minutos essa serie retratava uma visão bastante particular do que era ser mulher, quase velha, rica e solteira em New York City. E de alguma forma eu me identificava sem ter nenhuma semelhança com esse lifestyle, exceto pelo amor à moda.
Sinto informar que nas discussões sobre feminismo que participo não posso citar Simone ou Stuart pois não li suas obras com o afinco necessário para tal. Mas posso descrever cenas inteiras de diálogos dessas duas séries que tanto amei e com as quais me entreti por tanto tempo.
Tenho certeza que isso não me torna menos capaz de estar em uma discussão sobre os direitos das mulheres por ter tido modelos que não eram mulheres perfeitamente feministas ou percursoras da causa — TALVEZ JUSTAMENTE POR ISSO.
*alerta de spoilers leves*
Olivia teve de enfrentar a ira de colegas de trabalho que não acreditavam que uma mulher poderia ter tanta força ou obstinação profissional quanto eles. Ela passou 15 temporadas para assumir um cargo de chefia. Ela sofreu de violência sexual em uma série que, justamente, trata de combater violência sexual. Ela julgou mulheres por suas condutas sexuais e amorosas, mas nunca deixou de fazer seu trabalho com integridade. Recentemente, a serie acompanhou o desenvolvimento da sociedade norte americana e Olivia aparece na defesa irrestrita do feminismo.
Carrie passou 6 temporadas inteiras correndo atrás de um boy lixo (quem lembra do Mr. Big? Sugestivo, né!) que a fazia acreditar que eles não poderiam ficar juntos pois nunca era o momento correto para ela estar em sua vida. Ela tinha aventuras sexuais incríveis com parceiros dos mais diferentes estilos de vida e trouxe a tona assunto como a bissexualidade nos início do nosso século. Mas também exibia comportamentos como julgamento, falta de sororidade, falta de empatia com a comunidade gay, compulsão por compras e abuso de alcoólico como algo glamoroso.
Por outro lado, Carrie me mostrou que ser um fracasso na cozinha não me tornaria menos mulher respeitável. *atualemente, amo cozinhar*
E que as roupas que eu visto são uma decisão minha e da minha autoestima (mesmo se tenebrosas como essa aí debaixo)
A declaração de amor que fiz pela Carrie, essa personagem maravilhosa e cheia de falhas humanas, que a internet insiste em chamar de “cara de cavalo”, é para colocar em pauta a arrogância que muitas vezes vemos em discussões feministas.
O movimento feminista tem uma história incrível, que eu conheço um bom tanto, e conta com exemplos acadêmicos impressionantes, mas não é só disso que ele vive. Ele vive da vontade de querer que mulheres tenham os mesmos direitos e seguranças que os homens experienciaram durante a maior parte da história moderna. O movimento não tem dona e só existe nas ações e discussões que traçamos entre nós, mulheres.
No momento que excluímos determinadas mulheres das discussões feministas por elas não partilharem nossas referências acadêmicas ou o mesmo ímpeto de manifestação, estamos automaticamente enfraquecendo o movimento! No momento que escolhemos um tipo de feminismo (e um tipo específico de mulher) a defender, estamos sendo incoerentes! TODAS MULHERES DO MUNDO merecem o feminismo, mesmo aquelas que ainda não se percebem merecedoras.
A discussão é para todas e cada uma tem uma jornada mais ou menos secreta, mais ou menos difícil, mais ou menos violenta, mais ou menos sofrida, mais ou menos solitária de resistência e luta. Manas, mais sororidade com as Olivias, Carries e comigo!
> Sou graduanda de Ciências Sociais pela UFRGS e ainda não fiz as disciplinas específicas de gênero. <