Vida ou a falta dela

Lucas Bellator
Jul 25, 2017 · 9 min read

A larga sala sem janelas era iluminada por brancas lampadas de neon penduradas do teto. As máquinas e o ar condicionado gelado faziam um ruído estático, baixo e suave, solfejando frequências contínuas. Ele olhava para a mesa em silêncio, absorto em inércia hipnotizada, olhos pregados no corpo feminino. Sentia o estômago afundar e ao mesmo tempo tudo e nada passavam na cabeça. O médico legista do outro lado da mesa tinha uma expressão impassível, sério e respeitoso.

Rick tentou silenciar a consciência, mas a corrente de pensamentos e memórias que explodiam em sequência eram maiores que ele podia segurar ou controlar. A mente corria, voltava e seguia ao buscar significados e explicações para o que tinha acontecido, e qualquer fato parecia uma razão a qual se agarrar.

Veio a ele uma história, algo que tinha acontecido a anos e anos atrás. Uma anedota que tinha contado diversas vezes através dos anos, fosse para constranger a filha ou “provocar” a esposa em reuniões de família. A narrativa mudava de ano para ano, mas ele lembrava até hoje da primeira vez que contara. Deus, como parecia outra era, outra vida. Olhar para aquela época era lembrar de tudo. Era mais colorido e leve, onde Rick se entretinha até em escrever longos posts de ar cômico no Facebook.


“Existem dois tipos de pessoas: as que sabem e as que não sabem ensinar. Veja bem, é muito simples. Eu cheguei a um certo ponto de aceitar que alguns não foram feitos para explicar coisas. Isabella, minha esposa, recentemente tem sido muito, ah, enfática, em expressar que eu não tenho esse dom.

Nós temos uma filha juntos, sabe? Suzie, 7 anos. A menina é forte! Inteligente pra caralho ainda por cima. Tu nunca viu algo desse jeito, certeza. Ela pergunta das coisas, como as crianças fazem. Eu respondo. A gente vai a lugares, faz coisas. Sabe aquela história do pai que sempre quis um garoto? Pois a minha Suzie lavaria o chão com esse guri a qualquer hora, só marcar.

Ou então sou atrapalhado desse jeito pelo tempo que a gente vive. O jornal pinga sangue. Ao abrir a internet, vejo anúncios, crime, violência, religiões ditando fins-do-mundo-como-o-conhecemos, meteoros, russos, chineses, americanos. Essas coisas pesam. A minha filhinha no mesmo globo que tudo isso? É de revirar o estômago.

Esses dias, uma-terça feira, tô eu no carro. Meu amigo, minha amiga, eu me considero um senhor, um rapaz responsável, trinta e cinco anos e uma cabeleira densa, grisalha. Pago minhas contas sem atrasar. Uso óculos e caneta no bolso da camisa. Essa é a pinta que tu vê sentado dentro de um Prisma cinza muito bem conservado querendo chegar em casa.

Escuto meu rotineiro rádio e uma moto passa zarpando entre os carros à minha direita, voando lá na frente, cortando outros motoristas e praticamente assassinando o trânsito. Outras duas motos perseguem aquela, sirenes clareando os interiores dos carros no fim do dia. Trânsito morto, parado.

Três quadras depois, outra sinaleira. Não anda nunca. Dessa vez, são três artistas malabaristas aproveitando o sinal vermelho. Alguém tem que ganhar em cima, não tem? A cena faz menos sentido ainda agora que a prefeitura fez os benditos malabaristas usarem coletes e identificações. Quatro quadras, outra sinaleira. Quarenta minutos de trânsito. Um taxista na minha frente puxa um papo com o outro sobre o show vai ter.

A cidade inteira trancada, se não é por chuva, é pela merda do rock n’ roll.

Esses dias fui dar um copo d’água pra Suzie. Meu ouvido chegou a avermelhar de tanto que escutei da minha mãe e da minha mulher reclamando. Porque não se pega água da torneira pra criança, a água tá com gosto ruim, porque tá envenenada, que não limpam mais direito. Nem na água do governo dá pra confirmar mais. Não se pode tomar água da torneira que deus me acuda.

Elas dizem isso porque nenhuma das duas madames entrou no banheiro para se deparar com Suzie tomando água da pia do banheiro direto da fonte. Ela fazia uma graça pitoresca, se esgueirando na ponta do pé. Surpreendida, virou e me encarou, envergonhada.

“A água daqui é mais gelada, pai”, falou e saltou correndo para fora do banheiro.

Vindo pra casa do trabalho, mais uma vez. Sexta-feira. Segunda-feira é feriado, a cidade vazia demais. Quem não foi pra praia, pra serra, ou pro raio que o parta, se aninha em casa. É muito bom dirigir nesses termos. As ruas limpas, sinais verdes. O ar parece mais puro. O pôr do sol pela estrada banha o Prisma. Troco a rádio, hoje o cara não vai gritar, não tem um artista na rua. A vista é um filme sem filtro, a gama de laranjas, amarelos e azuis do céu banhando o asfalto.

Quando dobro na minha rua, a vista mais bonita que um homem pode querer: a própria casa. Entro pelo terreno e a grama verde me saúda, a pintura verde diz bem-vindo. Tem dias que tu parece que percebe tudo, gravando fotos na cabeça e qualquer coisa tem significado pra ti.

A babá tá botando a Suzie no quarto. Jantada, banhada e pronta para dormir. Isabella foi chamada para virar a noite em plantão no hospital. A menina sorridentemente brinca de organizar as bonecas, penteando uma a uma e sentando elas para ver TV. Tudo se encaminha para que eu tenha uma das sextas-feiras mais tranquilas do ano.

Despeço-me da empregada no portão e ela entra em um táxi amarelo, bate a porta e parte. Na hora, um estalo diabólico vem na minha mente: vou fumar um cigarro. Um cigarrinho. Diabo, unzito. Aquele ritual, na janela. Um cigarrits. Ninguém vai saber.

Não que não pudesse. Eu sei que a Isa fuma escondida também. A gente tinha prometido parar há seis anos e paramos. Mas de vez em quando, um cigarrinho era bom demais.

Observo a lua da janela, tragando. Que lua bonita da porra. Estrelas por todo o céu em uma noite sem as grandes nuvens de algodão de mais cedo. O céu claro começa a fermentar ideias de viagens e voos noturnos em minha mente. Um barulho na porta do quarto me tira rapidamente do estupor.

Nesse ponto da história, nada mais justo que dar razão a Isabella.

Eu sou, realmente, muito tapado. No ritualzinho de tirar o sapato, as calças desabotoar camisa, acender o cigarro e apreciar a vista, esqueci a porta do quarto aberta. E a cena que minha filha viu foi essa: o pai, de cuecas, fumando na janela.

“Filha, eu – ”

Suzie não pareceu perceber o meu imbecil ritual. Se aproximou, sem pestanejar. Minha filha sentou-se na grande cama de casal e perguntou, do nada:

“Pai, pra onde a gente vai quando morre?”, me perguntou ela abatida.

Muitas coisas impediram que eu respondesse aquela pergunta prontamente. Primeiro, o fato de ter sido pego de surpresa. Crianças, sendo como são, acabam sendo questionadoras predatórias quando se menos espera.

Segundo que assim, eu não fazia ideia do que responder. Ver ela cabisbaixa me partia o coração, tadinha.

Que que eu digo? Falo que depois de morrer, vamos subir aos pés de São Pedro e implorar pra entrar no céu? Foi o que me ensinaram nas catequeses e crismas. Posso dar uma de nórdico e falar para minha filha que ela vai descansar em um Valhalla para jantas e festas infinitas após grandes batalhas? Que renascemos, de vez em vez, para todo sempre.

Terceiro, que papo é esse?

“Pai?”, ela me olha.

Eu não cuido, trago o cigarro tornando evidente o mau hábito. Meu deus, realmente não sei o que estou fazendo. A essa altura do campeonato, o pior pai do mundo.

Eu podia dizer o que acredito. Que tudo acaba, que vamos voltar ao lugar de onde viemos, do nada. Podia dizer que ninguém tem essa resposta, ou explicar a ciência. Para uma criança de sete anos, o que você diria? A verdade é que nesse caso, a verdade é um ponto de vista.

O que se sabe é: nós nascemos, vivemos e morremos. São três únicas certezas absolutas.

Pois o que eu disse foi o seguinte:

“Nós vamos pro paraíso, minha filha. Lá, tudo é bom e bonito. Cada um tem o seu, e nós temos o nosso, a nossa casinha. Tá lá, vovô e vovó tomando conta pra gente. Lá a gente vai encontrar a tia Alice, a bisa e primos; todo mundo lá nos esperando. Tem rio e tu vai poder nadar. Cavalos, fazenda. É muito lindo.

Só que não podemos ir ainda. Ainda temos muito o que fazer por aqui. Você só ganha passagem pra lá depois de ter vivido bastante e feito muitas coisas boas por aqui. Aí eles vêm nos buscar.”

Ela me ouviu e se deitou na cama, olhando para o teto.

“Perguntei pra mamãe a mesma coisa”, disse decidida. Cruzou os braços e sentou. “Gostei mais do teu, pai. Anjos são chaaaatooooos!”, e em um movimento contórtico realmente impressionante, cambalhotou pra trás e iniciou uma dança estranha na cama, pulando e cantando.

“Anjos são chaaaatooos, anjos são chaaaatos!”, cantava sorridente.

Naquele dia, Isa, eu ganhei.

Apaguei o cigarro e atirei pela janela. Pedi licença e joguei o isqueiro descarga abaixo. Escovei os dentes umas duas vezes. Olhei da pia pro quarto e minha filha olhava o céu da janela. Escorada no marco da janela, Suzie estava quieta e pensava em outra coisa, cabeça nas nuvens.

Como é bom ser pai! 😍”


Suzie estava na frente dele agora. Deitada na mesa em eterno repouso. Os olhos fechados e a pele inchada indicavam que ela tinha passado dois dias na água, de acordo com o médico. Uma queda de três segundos e o baque com a água tinham sido o fim da filhinha dele. O legista tinha agora saído da sala e ele estava sozinho com o cadáver da filha, ainda atônito.

Se lembrou de quarto dias atrás quando ela tinha desaparecido. Parecia outra vida. A polícia marinha achou o corpo dela sem nenhum hematoma ou indícios de furto na praia. Foi levada pela correnteza da água e pelas estatísticas da queda e o tempo, os legistas calcularam que ela tinha se atirado da ponte João Pessoa. Ontem haviam encontrado na ponte uma bolsa dela com uma nota. Suicídio.

Ligaram para a família e confirmaram o que eles não queriam acreditar: a única filha tinha tirado a própria vida. Rick e Isabella tinham vindo o mais rápido que puderam, mas ela viu o corpo e foi embora sem dizer uma palavra, chorando profusamente. Rick ainda permanecia tal qual um sentinela em vigília parado em pé ao lado da mesa.

A porta rangiu e o legista entrou olhando para baixo. Rick virou para encara-lo. Ele nunca tinha sido de chorar, mas agora o rosto mostrava um vermelho e lágrimas secas. Com esforço, Rick conversou e descobriu os próximos procedimentos legais. Fizeram as normativas e ele foi embora dirigindo pela cidade em silêncio.

Ouvia o barulho silencioso do domingo. Final do dia e as pessoas prontas para começar a semana não faziam sentido para ele. Sentia que uma parte de si havia morrido e nunca mais voltaria, como se tivesse perdido um rim, pulmão e o coração. Deixou a janela aberta e o vento lavava e secava o rosto. Não chorava mais. A mente finalmente silenciara. Ele sentia como se fosse uma casca, um observador vazio da própria volta. Uma sucessão de falhas que tinha perdido não só uma filha como uma amiga, confidente e parceira.

Chegou em casa para encontrar Isabella no mais absoluto silêncio sentada na poltrona da janela. O ambiente inteiro era um breu de escuridão, mas dois tímidos feixes de luz iluminavam: uma pequena vela ao lado dela e a brasa do cigarro, que ela tragava lentamente.

Rick sentou no chão ao lado dela e recostou a cabeça em suas pernas e ela acariciou o topo da cabeça dele. Sentiam em uma triste sincronia que tinham perdido a voz e que nunca mais a teriam de volta. Ambos permaneceram quietos noite a dentro e acabaram por dormir ali mesmo.

Depois, com velório e enterro e todas as últimas homenagens, os dois de agarraram ao casamento e serviram como proteção de um ao outro, lidando em união com amigos e parentes desamparados pela perda da moça. Observavam com dor e angústia quando outros tentavam procurar significados e sentidos, quando eles já sabiam que não havia ponto nisso. Nenhuma razão seria forte e grande o bastante preencheria a falta que Suzie faria.

Com os anos, a vida seguiu e o sentimento de perda se transformou em uma saudade nostálgica pesada. Eventualmente, a sombra da falta da filha e diferentes pontos e rumos da vida causaram um tranquilo divórcio. A separação foi madura e honesta. Hoje Isabella é médica pela Cruz Vermelha na África, e Rick dá aula de inglês e trabalha em uma biblioteca.

Ambos seguiram suas vidas. Tiveram outros amantes, fizeram outras coisas, viram o mundo. Mas volta e meia, um daqueles dois separados pais de uma mesma menina se via num instante e a memória voltava como se fosse ontem. Ouvia uma porta abrindo e olhava rapidamente, esperançoso, esperando que fosse a filha entrando com um sorriso, os braços abertos. Afetuosa como gostavam de lembrar.

Lucas Bellator

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Fotógrafo, observador, editor.

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