A LIBERDADE SEM MEDO

Desde que comecei a ler Liberdade sem Medo (Summerhill), de A.S.Neill, uma passagem não sai da minha cabeça:

[… Aprendi a esperar e observar uma criança fazendo pequeno ou nenhum progresso. Jamais duvido de que, no fim, se não for molestada ou prejudicada, ela terá sucesso na vida.
- Bolas! Então você acha que ser motorista de caminhão é ter sucesso na vida?
Meu critério particular de sucesso refere-se à capacidade de trabalhar alegremente e de viver positivamente. Sob essa definição, a maior parte dos alunos de Summerhill terminou por ter sucesso na vida…].

Neill fundou, em 1921, a escola moderna Summerhill, na Inglaterra, que recebe até hoje crianças de 5 a 16 anos. O livro foi escrito em 1960 e esta passagem se refere ao capítulo “O que acontece com os que se formam em Summerhill”.

Não concordo com todas as colocações que ele faz (algumas me soam um pouco agressivas), mas é de se respeitar e admirar o que defende o diretor da escola: uma criação mais livre para as crianças e adolescentes, na qual elas decidem de quais disciplinas querem participar, além de oferecer trabalhos manuais e ter “algumas regras” definidas entre alunos e professores. Não seria esta a fórmula de despertar os maiores talentos?

Por meio de relatos sobre seus alunos e seus paradeiros, nota-se que esta liberdade defendida e aplicada por ele, cria seres humanos felizes, dedicados àquilo que têm gosto de fazer e distantes da “vagabundagem” ou do tédio. Ele relata — o que é muito interessante — que as crianças que inicialmente não queriam participar de nada ou não pertencer a nada, acabavam por ficar entediadas. E qual a consequência disso? Buscar, naturalmente, o que as faziam felizes entre um leque de atividades oferecida pela escola.

O trecho que abriu este texto me intrigou por ser tema de uma discussão bastante atual de uma geração de pais e mães criados com base no “temos que ser os melhores para ser alguém na vida”, mas que hoje repensa o valor real da felicidade e do tempo que se dedica para dar um futuro melhor aos filhos, mesmo estando distante deles - e de sua educação e formação. Muitos largam tudo ou querem mudar radicalmente de profissão ou de estilo de vida/trabalho. E isso, consequentemente, reflete na criação que querem dar a seus filhos e no legado que querem deixar à sua formação. Não querem criar profissionais infelizes e sim crianças alegres. Querem uma vida mais simples para ambos.

Pensando sobre isso, lembrei do documentário Happy que assisti há bastante tempo. O diretor Roko Belic foi atrás de pessoas de todo tipo de cultura — Dinamarca, Naníbia, Escócia, China, Quênia, Japão, Butão, Índia, Estados Unidos e Brasil. A entrevista que mais me emocionou foi realizada com um pai de família que cria seus filhos em uma miséria absoluta na África. Quando perguntado se ele é feliz, ele não hesita ao responder, apontando para sua família e dizendo com convicção que é claro que sim. Ele pede, então, para que o entrevistador olhe seu entorno e diz: esses são meus filhos, essa é minha casa. E tenho um trabalho que me possibilita criar minha família.

Achei aquilo tão genuíno e belo. Em meio a tantas dificuldades, ele mostrou o que realmente importa para ele e que o trabalho é o meio de manter esta felicidade que o cerca. Será que seus filhos serão infelizes? Ou serão felizes observando a dedicação de seus pais, a educação e formação de caráter que estão recebendo diariamente, mesmo estando distantes de “tudo” e de um mundo cheio de “oportunidades” e “sucesso”?

Summerhill passou por uma inspeção do governo britânico em 1949. Ali, Neill disse ter tido a sorte de receber dois profissionais com a mente mais aberta para, ao menos, tentar entender que a educação não convencional proposta por ele fazia sentido.

Ao fim do relatório, aplicado diante de diversos aspectos da educação e da própria escola, foi publicado que “Os pontos de vista do Diretor tornam esta Escola um lugar especialmente apropriado para o tipo de educação em que o trabalho essencial está baseado no interesse da criança e na qual os estudos feitos em classe não são injustamente governados pelas exigências dos exames. Ter criado uma situação na qual a educação acadêmica do tipo mais inteligente pode florescer é uma realização, mas ela não está realmente florescendo, e grande oportunidade fica, assim, perdida. Com melhor ensino em todos os estágios, e acima de tudo no estágio elementar, tal educação poderia florescer, e uma experiência de profundo interesse receberia sua oportunidade integral de se firmar”.

O inspetor confessou, ainda, para o Diretor na escola, que sentia uma sensação brusca e deliciosa de entrar numa sala de aula e perceber que os alunos não prestaram atenção, depois de anos vendo classes inteiras saltarem em cumprimentos!

A infância é a base de tudo. É a etapa na qual começamos a construir uma vida feliz e de valores. É a nossa oportunidade de fazer a criança enxergar o que mais importa na vida, as coisas simples que a cerca, fazê-la desenvolver suas habilidades naturais, sem minar ou considerar que o brincar é perder tempo.

A Liberdade sem Medo proposta pelo diretor da escola e autor é uma carta aberta à confiança que devemos depositar nas crianças — sem receitas prontas de um passado de ameaça e medo a qual fomos criados. É confiar nas escolhas pelo seu futuro e em uma felicidade plena. Se todas elas receberem uma educação respeitosa, com limites naturais que devem receber durante esta fase da vida, dificilmente serão pessoas infelizes ou sem “sucesso”.

A escola, segundo Neill, não produziu nenhum gênio. Apenas alguns espíritos criadores, ainda não famosos, alguns artistas brilhantes, alguns músicos inteligentes, nenhum escritor de sucesso, um excelente desenhista de móveis, e marceneiro, alguns atores e atrizes, alguns cientistas e matemáticos que ainda, segundo o autor (em 1960), poderão vir a apresentar trabalhos originais:

— Penso que para o volume do nosso corpo docente - quarenta e cinco alunos de cada vez - uma proporção generosa vem produzindo certo tipo de trabalhador criador e original.

Isso já não é genial?