Uma vida plena — profissional e pessoal

Há alguns meses estou trabalhando home office como freelancer. Isso significa ajustar meu tempo, não somente o meu relógio, para trabalhar e me dedicar a minha vida. Digo não somente o meu relógio, porque esta mudança exige uma nova mentalidade para lidar com a disciplina, controle emocional e a rotina.

Durante mitos anos, trabalhei fora de casa. Foi no cenário de ascensão profissional que tive minha filha e me “acostumei” a contar com ajuda de terceiros em sua criação e na minha rotina profissional. Mas nunca a deixei em segundo plano nem fui workaholic. Até que chega uma hora em que a vida nos direciona a mudar — seja por escolhas próprias ou por fatores externos. No início de minha vida de mãe, deixei o barco correr. “Fomos criados para exercer vários papéis e, quer saber, nós aguentamos”. Passei por lugares incríveis, trabalhei em projetos excelentes — outros nem tanto.

Mas resolvi recolher os remos e ajustar minha bússola profissional e pessoal. E sabe o que descobri? Existe muita vida lá fora — mesmo com muito trabalho, a mesma responsabilidade e dedicação.

Sempre fui de acordar cedo. Resultado da maternidade e da vida de corredora amadora. Nunca abandonei os esportes. Certo dia, nesta nova rotina, acordei às seis horas. Tinha que realizar um planejamento e, enquanto minha filha dormia, preparei meu café e parti para o computador. Antigamente, eu enrolava um pouquinho em casa e ia para agência, assim mesmo, bem cedinho, para aproveitar o ambiente tranquilo para trabalhar. A diferença é que lá eu tinha que aguentar firme até às 19 horas ou mais, o tradicional horário de saída. Mas, neste recente dia, quando a tardinha se fez presente, fui para a praia ver o mar, voltei, cozinhei, trabalhei novamente, li um livro. E então, pensei: como o dia rende quando você é capaz de controlá-lo da sua maneira.

Às vezes, no início, sentia culpa. Estamos acostumados a sempre estar ocupados profissionalmente, a mostrar que estamos realizando algo, de estar em contato com informações no computador a todo momento. Mas fui ajustando meus sentimentos e percebendo que com responsabilidade, a gente dá conta de viver e aproveitar o dia lindo lá fora, a família, a nossa própria casa. Passei a levar um caderno para a praia. Inspirações de projetos começaram a aparecer neste “aparente” tempo livre.

Hoje, talvez, eu trabalhe mais. Não necessariamente para o cliente, mas para mim e para minha família. Tirar a minha filha do período escolar integral mudou não só a rotina dela, mas a minha também. Mas ganhei tempo (note, disse que trabalho mais e estou dizendo agora que ganhei tempo!) para fazer as lições com ela, estudar para as provas, preparar seu almoço, que antes era servido na escola, brincar! Além disso, trabalhar de casa requer que você a mantenha em ordem — sua mesa de trabalho, sua cozinha, seu banheiro. Todos os cantos viram seu escritório. Mais um trabalho. Mas, mais do que isso, um investimento na qualidade de relacionamentos que importam e integração com o ambiente que escolhi estar.

Prepara o café da manhã, o almoço, o jantar, ajuda na lição de casa, trabalha, avisa: “a van está chegando”, lava a louça, tira a mesa do almoço e a transforma em mesa de trabalho, fala com o cliente, pesquisa referências, planeja… Tudo isso é muito corrido sim, mas no fim do dia, vem a gratificação de ter feito tanta coisa em um dia só, no seu tempo, e ainda ter tido a disposição para dar um mergulho no mar e folhear mais um capítulo do livro. O que chamo de cansaço bom e produtivo.

Antigamente, não sonhava com este modelo. Acreditava que definitivamente não era para mim. Talvez, nos tempos de solteira e mais nova, isso fizesse sentido. Achava solitário. Mas, neste pouco tempo, tenho encontrado pessoas extraordinárias que compartilham das mesmas ideias que as minhas, conversado e admirado muita gente que optou por este estilo de vida e visitado lugares adoráveis. Um dos meus parceiros profissionais me convidou para um projeto que descreveu sendo “leve como a Isabelle”. Fiquei grata pela oportunidade de trabalharmos juntos e por ele valorizar e reconhecer minha essência, mais aflorada do que nunca.

Não tenho mais o mesmo salário nem a certeza de que terei projetos a longo prazo. Mas confio e aposto neste novo modelo. E não só para mim. O apoio da família e de grandes amigos está sendo fundamental neste processo. Entre meus clientes, está meu próprio projeto pessoal que ficou engavetado há algum tempo e, finalmente, está saindo do papel. Hoje, me sinto plena e viva. E, nesta vida, você sabe bem, é preciso saber viver — não só sobreviver. Até mesmo às segundas-feiras, entre as panelas, as louças, o word e o excel.