A morte da Luz

De qualquer maneira, não é como se ela quisesse viver.

O vazio estava lá havia muito tempo. Desde que ela conseguiu separar, na sua cabecinha infantil, seu “eu” do resto do mundo. Aliás, ela teme que esse tenha sido o primeiro golpe e o mais crucial: foi aí que ela contraiu o vazio.

Não, ao nascer. Nascer foi o primeiro golpe e já, a partir desse momento, não havia mais o que fazer. Entender que ela era uma identidade una, suas irmãs eram outras que não era ela e o mundo era todo composto destes indivíduos eternamente separados uns dos outros e isolados em si mesmos por questões tanto físicas quanto metafísicas foi só o reconhecimento. O erro ocorreu no seu nascimento ou, quem sabe, na sua concepção.

Estava divagando. Tragou. Esse era seu último cigarro.

O vazio esteve sempre lá, comendo sua vida pelas beiradas. Encurralando-a dentro de uma existência insignificante e miserável. A sua irmã mais nova foi a primeira a entender a irreversibilidade desse cenário. Ela, ao contrário, continuou tentando por muito, muito tempo. Procurando aquela faísca que a fizesse entrar em combustão. Por algum motivo, ela achou que a encontraria no amor. Mas, afinal, o que é o amor? Essa coisa funciona mesmo?

Suspirou. Tragou. Será que alguma delas já morreu?

Afastou o pensamento. Prometeram uma a outra que fariam dessa forma para que nunca mais tivessem que sentir a dor da perda. A dor e o vazio são uma combinação insuportável. Não se tinha para onde correr. Naquela casa, principalmente, não havia canto ou esconderijo onde pudessem se esconder e desaparecer. Sua mãe conhecia todos. Seu pai era um fantasma que assombrava os corredores.

O cigarro acabou. Jogou fora a ponta que ainda queimava e, sem se preocupar em apagá-la com o pé, se dirigiu até a porta do automóvel.

Dentro do carro estava quente, agradável. Girou as chaves e esperou. Os preparativos haviam sido feitos, era só questão de tempo. E esperou. Se perguntou em que ordem morreriam. Ela com certeza não seria a primeira. E esperou. Doía menos pensar nisso agora que ela fazia parte disso. Não há mais volta. E esperou. Ela não teria que acordar amanhã para lidar com os estragos e sentir a dor e continuar a existir naquele vazio estático, naquele limbo. E esperou. Essa era a parte mais difícil. Tentou relaxar. “Logo, estarei dormindo”, pensou. Isso a fez sorrir.

O seu último pensamento enquanto perdia a consciência foi algo breve e, ao mesmo tempo, complexo, que ao ser explicado parecera extremamente longo. Ela pensou que a vida era algo muito difícil e assustador para se enfrentar sozinha. E ela estaria sozinha se desistisse agora. A morte é uma incógnita. A morte é o sono eterno, o nada, o fim ou as labaredas do inferno que iriam puni-la por aquilo que fez. Ainda assim, é preferível a morte do que uma existência — pode-se chamar isso de vida? — inútil, dolorida e abafada por quatro paredes, vestidos disformes de formatura, as rígidas leis de roma e a consciência de que por mais que tentemos nos unir — seja pelo toque, pelas canções ou pelo amor — estaremos irremediavelmente e eternamente isolados em nós mesmos — e em nossa própria dor que não pode ser mitigada. E a morte é sim mil vezes preferível, pois ela teria que enfrentar a vida sem elas. O inferno, se é isso que a aguarda, pelo menos seria enfrentado ao lado delas. Afinal, suicídio é um pecado imperdoável. Sua mãe fez questão de que elas aprendessem isso. Elas sabiam onde estavam se metendo.

Cecilia precisou de duas tentativas. Ela desejou de todo o coração que tivesse um pouco mais de sorte.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.