"… a direção é mais importante que a velocidade… "

Barriga cheia, peito vazio.

A vida corria muito bem: empresa própria, lecionava na faculdade, tinha dinheiro suficiente para meus padrões, 2 graduações, 2 pós-graduações e um mestrado a ser finalizado.
Pausa para você poder bocejar.

Pronto? Continuando…

Estava rodeada de amor e de amigos verdadeiros. Olhando de longe, um calmo mar. No fundo dele, eu. Submersa em tantas atividades diárias, esquecia-me de viver. Cumpria com os horários, com a programação semanal, com os prazos dos projetos; mas há tempos não cumpria um sonho pessoal. Precisava urgentemente subir à superfície, pegar fôlego e mudar a direção do barco.

Numa conversa de cozinha com meu pai, comecei a emergir.
Meu herói disse:

— Quando olho para trás não sei o que fiz durante uns 30 anos da minha vida! O que eu fiz? Eles passaram muito rápido…

Sabe o que ele fez durante esse tempo? O mesmo que todos nós.
Trabalhou.

Fora uma constatação indigesta. 
Não havia palavras para neutralizar o sabor amargo de sonhos não realizados.

O tom não era de reclamação ou arrependimento. Era de desesperança. Haverá tempo para concluir os seus sonhos?

Você pode me dizer: "Ah, que isso, claro que dará tempo!"

Mas percebi que a realização de nossos sonhos não depende do tempo que nos resta. Depende de assumi-los.

Não muito longe desse dia, numa conversa aleatória com amigas de infância, depois de duas ou três biritas (tá bem, talvez um pouco mais) discutíamos sobre o pacote de felicidade vendido pela sociedade, o qual contém restritas definições de sucesso:
- 5 Hábitos uma família perfeita
- 5 Dicas para um corpo áureo
- 10 Protocolos (5 machistas + 5 feministas) para que seu relacionamento amoroso receba 1K de curtidas.

Ficou nítido que todos aqueles ingredientes estavam sublimando qualquer possibilidade de autenticidade e espontaneidade nas nossas vidas.

A sociedade — já parou para pensar quem é ela? — não aceita protótipos, você tem que sair perfeito da fábrica, sem antes ser testado pelas suas próprias ideias.

Em certo momento alguém na mesa perguntou: “O que você faria se pudesse fazer qualquer coisa?”.

Aquela pergunta me levou à adolescência, aquela idade que a gente acredita que pode fazer qualquer coisa!

Com os olhos marejados eu disse: 
— Sempre quis ir pra África cuidar de crianças.

Estava certa que ririam de mim. 
Eis que a amiga advogada falou com toda o vigor pertinente da classe:

— Então vai, uai.

Assim. Sem ao menos questionar os desafios que eu teria que enfrentar para realizar esse sonho. Mas ela estava certa e os advogados dirão que isso é pleonasmo.

Qualquer empecilho que eu usasse como justificativa para não realizá-lo, tornava mais nítida a auto-sabotagem. Afinal, não há lugar no mundo mais pacato que nossa zona de conforto.

Esses dois fatos ficaram, por meses, marinando em minha mente. Eu só pensava em como administraria todos meus compromissos.

Finalmente, um dia eu decidi que daria uma pausa na empresa, nas aulas da faculdade e na dissertação do mestrado. Poupei dinheiro por 6 meses. Levava marmita para o trabalho, reduzi a visita aos bares (acredite, em BH, capital dos botecos, isso é mais difícil que começar um regime), e comecei a me adaptar a uma vida sem excessos.

Parei de querer participar de tudo que acontecia pela minha cidade e passei a selecionar o que faria nos fins de semana.

Quando chegou a hora, fiz um bazar na minha casa para vender minhas roupas, sapatos, acessórios, e também meu carro. O que mais me impressionou foi a quantidade de gente que me ajudou quando eu contei o que estava fazendo. O valor adquirido no bazar acabou cobrindo a passagem para o Quênia.

O que essa tomada de decisão me ensinou?

  • Sonhos adoram ficar na zona dos pretextos perfeitos.
  • Mais vale uma mochila nas costas do que um closet abarrotado de expectativas.
  • A gente já tem tudo que precisa. Sempre. E se você se desfaz do excesso, a liberdade assume o espaço.
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