Meio fora, meio dentro

Tem dias que eu acordo e, sem explicação alguma, sinto como se estivesse ligeiramente fora do corpo. Ou ligeiramente dentro, melhor dizendo. Quando eu estou no trabalho, por exemplo, não é difícil me concentrar no que tenho pra fazer. Mas parece que é outra pessoa no meu lugar, ali, digitando, fazendo planilhas, mandando e-mails. Como se eu estivesse apenas assistindo a vida acontecer e soubesse que ela é muito maior do que isso. Mas quem disse que meu corpo sucumbe a esse conhecimento? Ele não se permite.

Ao mesmo tempo que quero sair do corpo pra alcançar esse algo maior, fico presa aos deveres da carne. Às obrigações e necessidades sociais. Tudo pura tolice. Quer dizer, eu sei, elas são importantes pro nosso estado evolutivo, as pessoas precisam delas. Muitas não parecem conseguir ver além da economia, da política, das banalidades e da separação entre humano e natureza. Não conseguem, nas atividades do dia a dia, ver algo maior. Estão presas. Quer dizer, não é que estão presas, é que simplesmente ainda não chegaram lá. Só conseguem fazer divagações numa mesa de bar, ou olhando sozinhas pro céu numa noite tediosa. Ou percebem que há algo errado ao esperarem silenciosa e desconfortavelmente a estação de trem em que precisam descer para seguirem com suas vidas estranhas, opacas. Mas basta as portas abrirem para elas saírem do devaneio e se concentrarem em qualquer outra coisa que seja.

Eu me sinto constantemente nesse devaneio. Eu estou presa nele. Eu sinto minha alma mais fora do que dentro de mim. Ela quer escapar. E eu quero deixar ela ir. Mas eu não posso. Porque eu sei que se fizer isso agora, ela vai meio embora e meio não, e isso não pode acontecer — ela precisa ir inteira e totalmente livre. E ainda há um caminho pra que isso aconteça.

Isso não quer dizer que eu desejo a morte pra me libertar da carne. Mas eu adoraria ser só alma. Não preciso da matéria e não quero ela. Quero só tocar essa coisa maior, que está logo ali, na minha frente, mas que o peso do corpo me impede. Eu estou muito pesada pra chegar lá. Mas eu preciso, desesperadamente, não só tocar, mas mergulhar, me banhar desse algo maior. Quero que ele me possua. Quer dizer, ele não vai me possuir. Nós existiremos organicamente. Como tem que ser.

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