A produtividade que mata a criatividade

Como o foco excessivo em performance está acabando com o espaço para o novo

Imagem: @ikukevk

A academia é a nova balada.

Não estou inventando, gente. Foi destaque no The Guardian essa semana. Bom que dá pra unir o útil ao agradável, sem culpa, porque na balada a gente não produz nada, né? Além disso, no fim de semana não daria mesmo pra pensar em lazer, porque tem curso. Puxado, mas vai ser bom pro currículo. No fim do dia? Aula de inglês, estou precisando praticar conversação. Sabe como é, né? Empreender é duro e só tem sucesso mesmo quem faz sacrifícios. Agora deixa eu aproveitar esse intervalinho aqui do café pra ler um artigo. Por falar em leitura, chegou um novo livro e já estou com três na cabeceira da cama. Pelo menos o outro que estava lá eu coloquei na mochila e estou lendo durante as viagens. Ah, e ouvir podcasts é o que tem de melhor, salva o tempo perdido no trânsito.

Essa histórinha é fictícia, mas quem nunca, né?

Bem-vindo à Sociedade da Performance

Já reparou como a gente anda cheio de atividades “produtivas” o tempo inteiro? E quando tem um tempinho livre, sem nada programado, arrumamos algo “útil” para fazer. Se ficamos ali sem fazer nada, rola aquela culpa. Outro dia fiz uma enquete com meus amigos no Instagram e mais de 80% deles se sentem culpados quando “não está fazendo nada”.

Foi Eliana Brum, num artigo para o El País, que me fez pensar nesse tema pela primeira vez. Ela diz:

“A contemplação é civilizatória. E o tédio é criativo. Mas ambos foram eliminados pelo preenchimento ininterrupto do tempo humano por tarefas e estímulos simultâneos. Você executa uma tarefa e atende ao celular, responde a um WhatsApp enquanto cozinha, come assistindo à Netflix e xingando alguém no Facebook, pergunta como foi a escola do filho checando o Twitter, dirige o carro postando uma foto no Instagram, faz um trabalho enquanto manda um email sobre outro e assim por diante. Duas, três… várias tarefas ao mesmo tempo. Como se isso fosse um ganho — e não uma perda monumental, uma involução.”

Através do texto da Eliana eu conheci o livro Sociedade do Cansaço e entendi que a correria produtiva, no fim das contas, não abre espaço para o novo, porque “reproduz e acelera o já existente”. Vivemos correndo, produzindo e mesmo que não estejamos satisfeitos não conseguimos sair do loop, porque estamos cansados.

O remédio tarja branca: brincadeira e autotelismo

Domingos Montagner no Filme Tarja Branca — Maria Farinha Filmes / Reprodução Youtube

A boa e velha notícia é: você não precisa ser produtivo o tempo todo. E aqui não fala alguém que se tornou mestre nessa arte e sim quem está fazendo o exercício de não buscar uma finalidade pra tudo. Sabe como isso se chamava quando éramos crianças? Brincadeira. Observe uma criança brincando. Ela não pretende chegar a lugar nenhum com aquilo, nem obter nenhum resultado, é apenas o prazer do momento. Se esse papo te interessou, assiste Tarja Branca, um documentário ótimo sobre a importância do brincar.

Charles Watson, um mestre do processo criativo, me apresentou um conceito pra isso: autotelismo. Dizemos que é autotélico algo que “não apresenta qualquer finalidade ou objetivo fora ou para além de si mesmo”. Segundo Charles, pessoas que se destacam em todas as áreas, fizeram suas descobertas e criações em momentos de autotelismo. Veja bem.

Dois sistemas de atenção do cérebro e uma boa notícia

Alguns estudos da Universidade de Virgínia, liderados pelo professor Daniel Willingham, revelaram que nosso cérebro tem dois sistemas de atenção separados — um externo e outro interno. O externo está voltado para tudo que acontece a nossa volta e vem sendo muito ocupado principalmente pelo nosso smartphone. O interno é ativado quando estamos pensando em nós mesmos, no futuro ou no passado. A grande questão é que eles não funcionam simultaneamente e é justamente o sistema interno que nos permite resgatar memórias, viajar mentalmente, visualizar nossas próprias versões de eventos e fazer conexões. Nem precisa falar o quanto tudo isso tem a ver com criatividade, né?

Ainda curioso? Pega aqui um outro artigo, esse da Scientific American, sobre a relação de descanso e criatividade.

Agora tente relaxar, porque você não precisa ser produtivo o tempo todo. Tente fazer algo só pelo prazer de fazê-lo. E se ainda assim bater a culpa, lembre-se: vai ser bom para a sua criatividade.